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  • Policiais e bolsonarismo: a expressão de discursos discriminatórios em redes sociais abertas e fechadas

    Autores: Jacqueline Sinhoretto, André Cedro, Henrique Macedo.

    Em Policiais e bolsonarismo: a expressão de discursos discriminatórios em redes sociais abertas e fechadas os autores se quentionam qual é o alcance dos riscos que as instituições democráticas correm com a politização da polícia produzida pelo bolsonarismo no Brasil? O artigo visa a apresentar alguns elementos de resposta ao analisar a evolução da interação entre policiais militares de São Paulo em redes sociais digitais. Os dados coletados e as observações realizadas em redes sociais de policiais militares demonstram escolhas individuais e institucionais de práticas e políticas que podem opor grupos de policiais ao regime democrático. Os resultados apontam que a adesão bolsonarista de policiais produziu um deslocamento do eixo do debate público sobre segurança, com recuo das propostas reformistas e reforço da militarização do controle do crime.

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  • Política Nacional de Atenção às Pessoas Egressas

    Autor: Felipe Athayde Lins de Melo.

    O artigo descreve um percurso de esforços institucionais pela construção de uma Política Nacional de Atenção às Pessoas Egressas do sistema prisional realizados a partir dos anos 2000 pelo Departamento Penitenciário Nacional e pelo Conselho Nacional de Justiça, tendo como ponto de partida a previsão legal de responsabilização estatal pela provisão de assistência às pessoas que deixam os cárceres brasileiros. Para tanto, são utilizadas referências bibliográficas, notícias, documentos e publicações destes órgãos, além de registros etnográficos do autor. Ao descrever a atuação estratégica de um grupo de profissionais das políticas penais em ambos os órgãos, o texto busca ressaltar a importância do ativismo institucional como impulsionador de transformações e resistências ideológicas, a depender do macro-contexto político em que se insere o movimento pela criação daquela política. Palavras-chave: Pessoas egressas. Senappen. Conselho Nacional de Justiça.

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  • Experiências periféricas em Guarulhos durante a pandemia de COVID-19

    Autores: Liana de Paula, Joana de Fatima Rodrigues, Wesley Lima Santos.

    O artigo apresenta e discute os resultados da pesquisa “Desigualdades e vulnerabilidades na epidemia de COVID-19: monitoramento, análise e recomendações”, realizada pela Unifesp em parceria com a Fundação Tide Setubal, dos territórios de Guarulhos. Nele discutimos as especificidades dos territórios em Guarulhos, ambos no bairro dos Pimentas, focalizando a discussão sobre desigualdades, classes sociais e experiências e vivências das periferias urbanas, e os eixos analíticos constituídos para todos os territórios da pesquisa, que buscaram relacionar as desigualdades vividas e as experiências frente à pandemia.

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  • O medo e a violência como parte do cotidiano das/os agentes prisionais

    Autoras: Isabela Araujo, Ludmila Ribeiro.

    A proposta deste artigo é compreender como agentes prisionais femininas e masculinas percebiam o medo e a violência como de seu trabalho e, em que medida, esses sentimentos transbordavam para as suas rotinas fora do cárcere. Para tanto, foram analisados dados (qualitativos e quantitativos) coletados junto a profissionais que atuavam em Minas Gerais entre 2014 e 2018. Os resultados indicam que, no cotidiano do trabalho, homens e mulheres sentem medo igualmente, mas ao saírem da prisão, os homens se sentem mais ameaçados que as mulheres. No ambiente de trabalho, os homens temem, em maior medida do que as mulheres, serem atingidos por arma de fogo ou arma branca, bem como de sofrer agressão física ou violência psicológica. Em parte, isso acontece porque eles são mais propensos à vitimização por agressão, violência física e suborno no cotidiano de trabalho do que elas. Fora do ambiente de trabalho, apesar do maior medo deles, homens e mulheres adotam igualmente estratégias de proteção de sua identidade de agente prisional, tanto para evitar acertos de contas como para esconder uma profissão que ainda é vista como desacreditada.

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  • Disputas sobre a gestão da pandemia de Covid-19 nas prisões brasileiras

    Autores: Jacqueline Sinhoretto, Raphael de Almeida Silva.

    O artigo trata sobre a gestão da pandemia de COVID-19 nas prisões brasileiras em nível nacional, abordando os documentos emitidos pelo Conselho Nacional de Justiça e as posições do Governo Federal, de instituições estatais e da sociedade civil. Recorreu-se à análise de documentos, notícias de jornal, entrevistas com atores selecionados, os quais representam diferentes posições no debate público. Foram enfocadas as disputas sobre como gerir a população prisional durante a crise sanitária, identificando as principais linhas e ações propostas. Os resultados apontaram as resistências às propostas de desencarceramento e indicaram a existência de trânsito de atores entre instituições. Os achados contribuem com o conhecimento do funcionamento do campo do controle do crime e seus limites, que se mostraram operantes mesmo em situações de crise. A postura negacionista da crise sanitária adotada pelo Governo Federal exerceu um importante papel no enfraquecimento das medidas propostas para a gestão da saúde da população privada de liberdade, diluindo a importância das especificidades dos contextos de confinamento e a excepcionalidade do momento pandêmico.

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  • Entre o ensaiado e o que não pode ser dito: a política do silêncio entre integrantes do PCC em Minas Gerais

    Autoras: Isabela Cristina Alves de Araújo, Thais Lemos Duarte.

    Apesar de ser elemento corriqueiro em entrevistas realizadas no âmbito de pesquisas sociais, o silêncio é pouco compreendido em reflexões sociológicas sobre prisões e dinâmicas criminais. Contudo, deveria ser tratado como questão fundamental em algumas análises como, por exemplo, o processo de expansão da organização paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) a Minas Gerais. A partir de conversas efetuadas com pessoas presas na Penitenciária Nelson Hungria, situada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o artigo analisa o silenciamento em torno de determinados assuntos e, ainda, em que medida tal emudecimento permite compreender a difusão do grupo para além de seu território de origem. De fato, nem sempre o silêncio foi modulado através da ausência de sons, de forma que as narrativas efetuadas pelos presos constituíram uma espécie de repertório ensaiado, o que pode ser compreendido a luz de aspectos conjunturais e das características históricas de ação do PCC.

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  • As controvérsias da criação da carreira de policial penal

    Autores: Felipe Athayde Lins de Melo, Taylon Bezerra da Silva, Fernanda Natasha Bravo Cruz, Doriana Daroit.

    Os problemas crônicos do sistema prisional brasileiro impactam não somente as pes-soas privadas de liberdade, mas também os servidores penitenciários. Nesse contex-to, agentes penitenciários propuseram sua integração às forças de segurança pública através da criação da polícia penal. Este artigo demonstra como os principais atores envoltos realizaram suas articulações e disputas no processo da criação da nova car-reira policial, baseando-se na abordagem da Teoria Ator-Rede de Bruno Latour. Neste ensejo, realizou-se a cartografia das controvérsias da criação da carreira de policial penal, verificando o surgimento da carreira enquanto viabilização de um referencial securitista das políticas penais. Diversos atores, incluindo aqueles que entendem que é necessário trabalhar de modo prioritário nas políticas públicas sociais e assistivas para as pessoas privadas de liberdade têm questionado esse processo.

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  • A complexidade e o enigma do Primeiro Comando da Capital: uma análise do surgimento sócio-histórico da facção

    Autor: Eduardo Armando Medina Dyna.

    A sociedade brasileira nas últimas décadas foi perpassada por graves problemas sobre a segurança pública e a questão das cidades urbanas, designando novas complicações sobre violência, insegurança e criminalidade na vida cotidiana do povo brasileiro, surgindo a partir da década de 1980 e 1990, as denominadas organizações criminosas, facções oriundas das atividades ilegais e do sistema prisional, em especial, a organização Primeiro Comando da Capital (PCC). Desta forma, o objetivo deste artigo é investigar a construção do surgimento do PCC, averiguando sua origem e seus elementos complexos das atuações políticas, econômicas, simbólicas, culturais, sociais e institucionais. O intuito é compreender esse primeiro momento de criação da facção, indo além da visão estereotipada e opaca. Foi utilizado o método qualitativo, através de uma revisão bibliográfica sobre as principais referências teóricas e especialistas sobre o objeto de pesquisa. O Primeiro Comando da Capital, surgido em 1993 em uma cadeia no interior do estado de São Paulo, é atualmente, a maior facção do Brasil, estando presente em todo território nacional e também em regiões da América Latina, tornando-se um objeto complexo e místico na opinião pública, nos discursos governamentais e no âmbito acadêmico.

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  • Entre o cuidado e a custódia: Como agentes prisionais em Minas Gerais percebem seu trabalho

    Autoras: Isabela Cristina Alves Araujo, Ludmila Ribeiro.

    Este artigo desvela como agentes prisionais em Minas Gerais percebem seu trabalho, se voltado à garantia da ordem ou ao cuidado — palavra tradicionalmente associada às atividades de ressocialização no cárcere. Para tanto, analisamos se o sexo do profissional influencia essa percepção, por meio de 1.525 questionários on-line autoaplicados entre 2014 e 2015, além de entrevistas semiestruturadas com dez mulheres e 13 homens em atividade de 2016 a 2018. Na percepção dessas pessoas, a manutenção da ordem e da segurança são os principais objetivos da profissão. As similaridades dos discursos de mulheres e homens indicam a adoção de valores atribuídos ao masculino, como uso da força e brutalidade, vistos como essenciais para manter a ordem no cárcere.

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  • Conceituações plásticas da tortura: disputas e consensos em torno dessa violência estatal

    Autoras: Maria Gorete Marques de Jesus, Thais Lemos Duarte, Thais Lemos Duarte.

    Como a tortura é nomeada e compreendida por distintos atores? Haja vista tal questão, o artigo busca analisar as disputas e os consensos existentes sobre o modo como a tortura é concebida entre membros da sociedade civil e do poder público. Foram realizadas, então, entrevistas semiestruturadas com diferentes atores que atuam na assistência e atenção às vítimas de violações cometidas pelos agentes do Estado. Através das narrativas colhidas e das análises realizadas, foi possível observar uma série de sentidos empregados à palavra tortura, o que revela um uso estratégico do termo em múltiplos contextos políticos e sociais.

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  • Matar muito e prender mal

    Autora: Maria Carolina Schlittler
    O livro analisou o impacto das desigualdades de tratamento no policiamento ostensivo em São Paulo sobre juventude negra. Com base em dados quantitativos, entrevistas com policiais e ativistas de movimentos sociais, analisa a atuação policial e as políticas públicas de segurança, demonstrando a persistência do racismo institucional. A autora é pesquisadora do GEVAC e doutora em Sociologia pelo PPGS UFSCar. Foi publicado com o apoio do INCT-InEAC.

    O livro pode ser adquirido no site da editora Autografia

  • Estudo mostra ‘brutal diferença de tratamento’ entre brancos e negros na aplicação de punições

    A Rádio CBN São Paulo divulgou uma entrevista sobre a Pesquisa Policiamento Ostensivo e Relações Raciais. Para falar sobre a pesquisa realizada em SP, MG, RS e DF, entrevistou Jacqueline Sinhoretto, professora de Sociologia da UFSCar, coordenadora do Grupo de Estudos sobre a Violência e Administração de Conflitos, pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos; Felipe Freitas, doutor em direito pela UnB e integrante do Grupo de Pesquisa em Criminologia da UEFS; e Dagoberto Albuquerque, major da Brigada Militar de Porto Alegre.

    Ouça o programa aqui

  • Quarta Sociológica

    Em 11 de novembro acontece a Quarta Sociológica com a Profa Jacqueline Sinhoretto, transmitida pelo Canal Youtube do PPGS UFSCar, às 10 horas. O título da palestra é “Filtragem racial e militarização da segurança: o corpo às tecnologias de controle”

  • Seminário Policiamento ostensivo e relações raciais

    Nos dias 21 e 22 de outubro será realizado o seminário Policiamento Ostensivo e relações raciais para divulgar os resultados da pesquisa feita em SP, MG, RS e DF sobre o modelo de policiamento ostensivo e seus impactos na produção da desigualdade racial na segurança pública. Foram analisados dados quantitativos de prisões em flagrante e letalidade policial por cor/raça. Foram feitas entrevistas em profundidade com policiais militares sobre o tema polícia e racismo, permitindo conhecer o que policiais brancos e negros, oficiais e praças, pensam sobre o tema. O seminário contará com a exposição de pesquisadores e o comentário de policiais sobre os resultados encontrados.

     

    Coordenação geral: Jacqueline Sinhoretto (GEVAC-UFSCar/InEAC)

    Comissão organizadora: Luiza Dutra, Laura Lima, Henrique Macedo, André Cedro

     

    MESA I – POLICIAMENTO OSTENSIVO E FILTRAGEM RACIAL (21/10, 16h)

    Eduardo Batitucci

    Henrique Macedo

    Gilvan Gomes da Silva

    Juliana Leme

    Mediação: Jacqueline Sinhoretto

     

    MESA II – POLICIAIS E DESIGUALDADES RACIAIS (22/10, 16h)

    Haydée Caruso

    Felipe Zilli

    Luiza Dutra

    Major Albuquerque (BM-RS)

    Mediação: Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo

     

    O seminário será transmitido pelo Canal do Youtube do InEAC e pelo Facebook do GEVAC UFSCar

  • Polícia Pra Quê? Protestos antirracistas e o fim do monopólio policial

    Webmesa com Jacquelines Muniz e Sinhoretto, mediada por Marlene Spaniol, dia 21 de julho de 2020, às 17h50, no canal Youtube do INCT-InEAC

    https://www.youtube.com/channel/UCd_ftuMjKeqkN0q7yqV2TSg

  • Vire a Chave #18 – Polícia Militar

    Neste podcast, Jacqueline Sinhoretto, coordenadora do GEVAC, participa com Anderson Duarte e Cecília Olliveira, do programa Vire a Chama #18 sobre a Polícia Militar.

    O Podcast é uma produção do IBCCRIM e está disponível nas plataformas de streaming .

    Ouça aqui 

    O Vire a Chave debate a formação histórica da Polícia Militar no Brasil e sua atuação hoje. O episódio analisa a altíssima letalidade policial no país e os dados sobre mortes de policiais, sobretudo fora de serviço, e também os altos índices de suicídio de agentes. Nossos convidados também comentaram sobre os filtros que a PM usa nas abordagens e os mecanismos de controle da atividade policial.

    Participaram do episódio Anderson Duarte, (capitão da PM do Ceará e mestre e doutor em Educação Brasileira pela UFC), Cecília Olliveira (jornalista do site The Intercept Brasil e desenvolvedora da plataforma Fogo Cruzado) e Jacqueline Sinhoretto (professora de Sociologia da UFSCar e coordenadora do GEVAC).

    A música de abertura é um trecho de “Favela Livre 3”, de ADL, Choice, Djonga, Menor do Chapa e Negra Li.

    A apresentação do podcast é feita por Gabriel Queiroz e Harumi Visconti. O roteiro e a produção é de Harumi Visconti e a edição é de Rodrigo Pastore. Coordenação do podcast: Douglas Calixto.

  • Ciência USP #26: O que racismo tem a ver com violência policial?

    Ouça aqui o podcast em que a Coordenadora do GEVAC abordou a pesquisa sobre policiamento e questões raciais. No mesmo programa participou Paulo César Ramos, também pesquisador vinculado ao grupo. A produção é do Jornal da USP.

    Ciência USP #26: O que racismo tem a ver com violência policial?

    A morte de George Floyd chamou a atenção do mundo para a violência policial e a desigualdade racial que ela aprofunda. O Brasil não está livre desse problema. Conversamos com dois pesquisadores que estudam a relação entre o racismo e violência da polícia. Também neste episódio: em meio à pandemia, medir a febre é suficiente para evitar contaminações pelo coronavírus?

    Por – Editorias: – URL Curta: jornal.usp.br/?p=332525

    Quando você ouvir este Ciência USP, já terá completado um mês que George Floyd foi morto pela polícia de Mineápolis, nos Estados Unidos. Milhares de cidades americanas terão registrado protestos contra o racismo e a violência policial. Dezenas de países terão declarado apoio ao movimento Black Lives Matter e condenado a brutalidade da polícia americana.

    Infelizmente, a violência policial não está restrita ao Hemisfério Norte. No Brasil, há muitos casos semelhantes ao de George Floyd, em que a ação da polícia resulta na morte de uma pessoa negra, seja adulta ou criança. Foi assim com Guilherme, João Pedro, Ágatha e outros.

    Neste episódio conversamos com dois pesquisadores que estudam a relação entre racismo e violência policial:

    • Paulo Cesar Ramos, sociólogo, doutorando da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP;
    • Jacqueline Sinhoretto, também socióloga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

    E das notícias da pandemia veio um debate sobre a eficácia da medição de febre como ferramenta para prevenção da covid-19 em locais públicos. Falamos sobre o assunto com Eliseu Waldmann, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

    Apresentação: Silvana Salles
    Produção: Giovanna Stael e Silvana Salles
    Edição de som: Guilherme Fiorentini

  • Após a morte de George Floyd, movimento “Defund the Police” quer o fim das polícias

    Por Jacqueline Sinhoretto

    Publicado no Blog Faces da Violência em 10 junho 2020

    https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2020/06/10/apos-a-morte-de-george-floyd-movimento-defund-the-police-quer-o-fim-das-policias/?loggedpaywall

     

    Não só o edifício da unidade policial responsável pela morte de George Floyd foi destruído pelo fogo. O equivalente à câmara municipal de Minneapolis, nos EUA, acaba de aprovar o desmantelamento da polícia. A organização policial dessa cidade acabou.

    O orçamento destinado à polícia será, em parte, aplicado no suporte social à comunidade negra para minimizar os efeitos da Covid19, em termos sanitários e econômicos. Outra parte será empregado na reconstrução da polícia em bases comunitárias.

    É um novo capítulo da história americana em que os termos dismantle e defund entraram no vocabulário das relações entre polícia e sociedade. Jornais com o New York Times e The Guardian destacam a questão, informam que Los Angeles reduziu o financiamento da polícia e outras cidades estudam fazê-lo[1].

    Desde 1980 os investimentos em corpos policiais e tecnologias de policiamento multiplicou-se. As reformas do período visavam a redução de crimes violentos nas cidades americanas. Várias vertentes de reformas concorreram no campo policial, de um lado a tecnificação, com uso de de análise de dados, planificação, sistemas de gestão, fluxos de tomada de decisão, criação de protocolos e reformas na educação policial. De outro, modelos comunitários de policiamento, participação social, transparência, foco nos diferentes públicos e integração com as políticas de assistência social e prevenção. Uma terceira vertente apoiou-se em políticas de tolerância zero, encarceramento massivo, “guerra às drogas”. A militarização das polícias se tornou também crescente, com o uso mais frequente de armamento pesado. Os políticos de direita supervalorizaram a terceira vertente, e a importaram para a América Latina como modelo de polícia que funciona.

    Estudiosos da criminologia demonstraram que o declínio das políticas sociais coincidiu com o crescimento das políticas de controle do crime. Menos bem-estar, mais prisão e polícia. O enxugamento do Estado só teve uma exceção. Se a polícia produz mais medo do que segurança, se ela mata, se ela discrimina, se as prisões não ressocializam e não cumprem os direitos civis, isso não se reverteu em questionamento dos métodos, dos objetivos e dos recursos destinados à prisão e à polícia.

    Investimentos milionários continuaram a ser revertidos, enquanto o encarceramento em massa passou a ser analisado como um complexo industrial da punição: sua função de lucro e geração de empregos era mais importante do que sua capacidade de reintegrar socialmente os egressos.

    Os dados do encarceramento, amplamente analisados, demonstraram seu caráter discriminatório e seletivo. As prisões americanas segregam negros e latinos, sendo a “guerra às drogas” o grande motor do controle social racista. Enquanto isso, a polícia afirmava a efetividade da filtragem racial para o controle do crime: ao mapear as áreas problemáticas, são as comunidades negras as que têm mais problemas, portanto é lá que o policiamento deve se concentrar e o número de abordagens de pessoas negras deve crescer.

    Pouco a pouco o policiamento comunitário foi esquecido como base da reforma. Cada vez mais a tecnificação do trabalho policial e a tolerância zero levaram a concentrar a repressão nos bairros negros.

    No século 21, a violência declinou nas cidades norte-americanas. Mas a estrutura de repressão baseada na ‘discriminação estatística’ das comunidades negras e latinas não parou de produzir mortes. Entre os países ricos, os EUA têm de longe o maior número de pessoas mortas pela polícia. Os casos se sucedem produzindo resistência. Em Nova Iorque a justiça chegou a proibir a abordagem policial por causa da filtragem racial e dos efeitos da discriminação para as pessoas negras. O movimento #BlackLivesMatter se fortalece ao lutar contra as mortes dos cidadãos negros pela polícia.

    O protesto por justiça para Floyd já dura duas semanas. Ganhou apoio para desmantelar e reduzir o financiamento da polícia porque é grande o descontentamento com os resultados do alto investimento. A polícia cresceu demais, os modelos de policiamento que predominaram no campo policial produzem desigualdade racial e brutalidade policial. Hoje a violência da polícia preocupa mais do que a violência do crime.

    Vários estados regularizaram o uso e a comercialização da maconha, tornando obsoleto o caro e brutal aparato de “guerra às drogas”. A sociedade evoluiu no tema e as polícias perderam espaço. São crescentes os apelos para a desmilitarização das polícias e aumento de transparência e controle dos abusos.

    O punitivismo, acoplado à injustiça racial, chegou ao limite durante a crise da Covid19, expondo os vínculos políticos do aparato tecnológico do policiamento, supostamente neutro, com a opressão racista. Em Minneapolis, a decisão foi dissolver a organização policial dado o seu alto grau de comprometimento profissional e organizacional com o modelo que produz brutalidade policial e desigualdade racial. Uma nota de 20 dólares preocupa a polícia mais do que a proteção da vida quando essa anima um corpo negro. Os protocolos de operação induzem ao uso desproporcional da força, a educação policial e as técnicas de imobilização permitem que a voz que diz não conseguir respirar seja ignorada até seu completo silenciamento.

    Pede-se agora menos polícia, mais bem-estar. Pede-se o recuo do protagonismo absoluto da polícia na produção da segurança pública e o repensar profundo das bases que orientam o policiamento. Os sistemas integrados de proteção social são o horizonte da sociedade civil que protesta, exigindo da polícia que consuma menos dinheiro e que repense sua razão de ser. Os recursos devem ser destinados às políticas de suporte social das comunidades negras, políticas redistributivas, na construção da reconciliação e da democracia americana em direção a uma sociedade menos violenta. São os novos ventos do norte a insuflar uma ruptura nas concepções e nos saberes sobre “justiça” e “vida segura”.

    [1] Para conhecer mais: https://www.nytimes.com/2020/06/05/us/defund-police-floyd-protests.html, https://www.theguardian.com/us-news/2020/jun/04/defund-the-police-us-george-floyd-budgets, https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/06/07/policia-de-minneapolis-sera-desmantelada-e-reconstruida-camara-municipal.htm

     

    Jacqueline Sinhoretto, socióloga, professora da Universidade Federal de São Carlos, coordenadora do GEVAC UFSCar.

  • Quando as políticas não são públicas: tensões entre gestão e políticas de segurança pública e prisão no estado de São Paulo

    Autoras: Jacqueline Sinhoretto e Liana de Paula
    Este trabalho discute os processos de formulação e implementação de políticas públicas de integração entre segurança pública e sistema prisional no estado de São Paulo, a partir dos resultados da pesquisa Segurança Pública e Encarceramento no Brasil: articulações e tensões entre políticas e práticas1. Realizada em 2016, tendo como fontes entrevistas e compilação de documentos e dados secundários, a pesquisa apontou que, diferentemente dos outros estados pesquisados, a saber, Minas Gerais (Política de Defesa Social) e Pernambuco (Programa Pacto pela Vida), São Paulo não apresenta um desenho claro de suas políticas de segurança pública e sistema prisional. Como demonstraremos aqui, a não formulação de um desenho claro das políticas de segurança pública e sistema prisional em São Paulo impede, por um lado, a participação da sociedade civil e o estabelecimento de um debate público e democrático sobre princípios, diretrizes e foco das ações de persecução criminal, bem como sobre metas e objetivos ou impactos esperados no sistema prisional. Por outro lado, sem essa formulação, os diferentes atores que compõem as instituições de justiça e segurança pública agem em conformidade com as posições ideológicas das cúpulas, enfocando o encarceramento e reproduzindo culturas organizacionais que em nada contribuem para a melhora nos indicadores de segurança pública. Pelo contrário, o encarceramento em massa tem reforçado processos de seletividade penal a partir das clivagens racial e etária e a organização de grupos criminais a partir do cárcere, além de acarretar um elevado custo econômico.

    O capítulo compõe o livro “Violência, Segurança e Política: processos e figurações”, organizado por José Vicente Tavares-dos-Santos, Nilia Viscardi, Pablo Emilio Angarita Cañas e Maria Glaucíria Mota Brasil.

    Acesse o livro pela biblioteca da CLACSO.