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  • Estudo mostra ‘brutal diferença de tratamento’ entre brancos e negros na aplicação de punições

    A Rádio CBN São Paulo divulgou uma entrevista sobre a Pesquisa Policiamento Ostensivo e Relações Raciais. Para falar sobre a pesquisa realizada em SP, MG, RS e DF, entrevistou Jacqueline Sinhoretto, professora de Sociologia da UFSCar, coordenadora do Grupo de Estudos sobre a Violência e Administração de Conflitos, pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos; Felipe Freitas, doutor em direito pela UnB e integrante do Grupo de Pesquisa em Criminologia da UEFS; e Dagoberto Albuquerque, major da Brigada Militar de Porto Alegre.

    Ouça o programa aqui

  • Vire a Chave #18 – Polícia Militar

    Neste podcast, Jacqueline Sinhoretto, coordenadora do GEVAC, participa com Anderson Duarte e Cecília Olliveira, do programa Vire a Chama #18 sobre a Polícia Militar.

    O Podcast é uma produção do IBCCRIM e está disponível nas plataformas de streaming .

    Ouça aqui 

    O Vire a Chave debate a formação histórica da Polícia Militar no Brasil e sua atuação hoje. O episódio analisa a altíssima letalidade policial no país e os dados sobre mortes de policiais, sobretudo fora de serviço, e também os altos índices de suicídio de agentes. Nossos convidados também comentaram sobre os filtros que a PM usa nas abordagens e os mecanismos de controle da atividade policial.

    Participaram do episódio Anderson Duarte, (capitão da PM do Ceará e mestre e doutor em Educação Brasileira pela UFC), Cecília Olliveira (jornalista do site The Intercept Brasil e desenvolvedora da plataforma Fogo Cruzado) e Jacqueline Sinhoretto (professora de Sociologia da UFSCar e coordenadora do GEVAC).

    A música de abertura é um trecho de “Favela Livre 3”, de ADL, Choice, Djonga, Menor do Chapa e Negra Li.

    A apresentação do podcast é feita por Gabriel Queiroz e Harumi Visconti. O roteiro e a produção é de Harumi Visconti e a edição é de Rodrigo Pastore. Coordenação do podcast: Douglas Calixto.

  • Ciência USP #26: O que racismo tem a ver com violência policial?

    Ouça aqui o podcast em que a Coordenadora do GEVAC abordou a pesquisa sobre policiamento e questões raciais. No mesmo programa participou Paulo César Ramos, também pesquisador vinculado ao grupo. A produção é do Jornal da USP.

    Ciência USP #26: O que racismo tem a ver com violência policial?

    A morte de George Floyd chamou a atenção do mundo para a violência policial e a desigualdade racial que ela aprofunda. O Brasil não está livre desse problema. Conversamos com dois pesquisadores que estudam a relação entre o racismo e violência da polícia. Também neste episódio: em meio à pandemia, medir a febre é suficiente para evitar contaminações pelo coronavírus?

    Por – Editorias: – URL Curta: jornal.usp.br/?p=332525

    Quando você ouvir este Ciência USP, já terá completado um mês que George Floyd foi morto pela polícia de Mineápolis, nos Estados Unidos. Milhares de cidades americanas terão registrado protestos contra o racismo e a violência policial. Dezenas de países terão declarado apoio ao movimento Black Lives Matter e condenado a brutalidade da polícia americana.

    Infelizmente, a violência policial não está restrita ao Hemisfério Norte. No Brasil, há muitos casos semelhantes ao de George Floyd, em que a ação da polícia resulta na morte de uma pessoa negra, seja adulta ou criança. Foi assim com Guilherme, João Pedro, Ágatha e outros.

    Neste episódio conversamos com dois pesquisadores que estudam a relação entre racismo e violência policial:

    • Paulo Cesar Ramos, sociólogo, doutorando da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP;
    • Jacqueline Sinhoretto, também socióloga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

    E das notícias da pandemia veio um debate sobre a eficácia da medição de febre como ferramenta para prevenção da covid-19 em locais públicos. Falamos sobre o assunto com Eliseu Waldmann, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

    Apresentação: Silvana Salles
    Produção: Giovanna Stael e Silvana Salles
    Edição de som: Guilherme Fiorentini

  • Após a morte de George Floyd, movimento “Defund the Police” quer o fim das polícias

    Por Jacqueline Sinhoretto

    Publicado no Blog Faces da Violência em 10 junho 2020

    https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2020/06/10/apos-a-morte-de-george-floyd-movimento-defund-the-police-quer-o-fim-das-policias/?loggedpaywall

     

    Não só o edifício da unidade policial responsável pela morte de George Floyd foi destruído pelo fogo. O equivalente à câmara municipal de Minneapolis, nos EUA, acaba de aprovar o desmantelamento da polícia. A organização policial dessa cidade acabou.

    O orçamento destinado à polícia será, em parte, aplicado no suporte social à comunidade negra para minimizar os efeitos da Covid19, em termos sanitários e econômicos. Outra parte será empregado na reconstrução da polícia em bases comunitárias.

    É um novo capítulo da história americana em que os termos dismantle e defund entraram no vocabulário das relações entre polícia e sociedade. Jornais com o New York Times e The Guardian destacam a questão, informam que Los Angeles reduziu o financiamento da polícia e outras cidades estudam fazê-lo[1].

    Desde 1980 os investimentos em corpos policiais e tecnologias de policiamento multiplicou-se. As reformas do período visavam a redução de crimes violentos nas cidades americanas. Várias vertentes de reformas concorreram no campo policial, de um lado a tecnificação, com uso de de análise de dados, planificação, sistemas de gestão, fluxos de tomada de decisão, criação de protocolos e reformas na educação policial. De outro, modelos comunitários de policiamento, participação social, transparência, foco nos diferentes públicos e integração com as políticas de assistência social e prevenção. Uma terceira vertente apoiou-se em políticas de tolerância zero, encarceramento massivo, “guerra às drogas”. A militarização das polícias se tornou também crescente, com o uso mais frequente de armamento pesado. Os políticos de direita supervalorizaram a terceira vertente, e a importaram para a América Latina como modelo de polícia que funciona.

    Estudiosos da criminologia demonstraram que o declínio das políticas sociais coincidiu com o crescimento das políticas de controle do crime. Menos bem-estar, mais prisão e polícia. O enxugamento do Estado só teve uma exceção. Se a polícia produz mais medo do que segurança, se ela mata, se ela discrimina, se as prisões não ressocializam e não cumprem os direitos civis, isso não se reverteu em questionamento dos métodos, dos objetivos e dos recursos destinados à prisão e à polícia.

    Investimentos milionários continuaram a ser revertidos, enquanto o encarceramento em massa passou a ser analisado como um complexo industrial da punição: sua função de lucro e geração de empregos era mais importante do que sua capacidade de reintegrar socialmente os egressos.

    Os dados do encarceramento, amplamente analisados, demonstraram seu caráter discriminatório e seletivo. As prisões americanas segregam negros e latinos, sendo a “guerra às drogas” o grande motor do controle social racista. Enquanto isso, a polícia afirmava a efetividade da filtragem racial para o controle do crime: ao mapear as áreas problemáticas, são as comunidades negras as que têm mais problemas, portanto é lá que o policiamento deve se concentrar e o número de abordagens de pessoas negras deve crescer.

    Pouco a pouco o policiamento comunitário foi esquecido como base da reforma. Cada vez mais a tecnificação do trabalho policial e a tolerância zero levaram a concentrar a repressão nos bairros negros.

    No século 21, a violência declinou nas cidades norte-americanas. Mas a estrutura de repressão baseada na ‘discriminação estatística’ das comunidades negras e latinas não parou de produzir mortes. Entre os países ricos, os EUA têm de longe o maior número de pessoas mortas pela polícia. Os casos se sucedem produzindo resistência. Em Nova Iorque a justiça chegou a proibir a abordagem policial por causa da filtragem racial e dos efeitos da discriminação para as pessoas negras. O movimento #BlackLivesMatter se fortalece ao lutar contra as mortes dos cidadãos negros pela polícia.

    O protesto por justiça para Floyd já dura duas semanas. Ganhou apoio para desmantelar e reduzir o financiamento da polícia porque é grande o descontentamento com os resultados do alto investimento. A polícia cresceu demais, os modelos de policiamento que predominaram no campo policial produzem desigualdade racial e brutalidade policial. Hoje a violência da polícia preocupa mais do que a violência do crime.

    Vários estados regularizaram o uso e a comercialização da maconha, tornando obsoleto o caro e brutal aparato de “guerra às drogas”. A sociedade evoluiu no tema e as polícias perderam espaço. São crescentes os apelos para a desmilitarização das polícias e aumento de transparência e controle dos abusos.

    O punitivismo, acoplado à injustiça racial, chegou ao limite durante a crise da Covid19, expondo os vínculos políticos do aparato tecnológico do policiamento, supostamente neutro, com a opressão racista. Em Minneapolis, a decisão foi dissolver a organização policial dado o seu alto grau de comprometimento profissional e organizacional com o modelo que produz brutalidade policial e desigualdade racial. Uma nota de 20 dólares preocupa a polícia mais do que a proteção da vida quando essa anima um corpo negro. Os protocolos de operação induzem ao uso desproporcional da força, a educação policial e as técnicas de imobilização permitem que a voz que diz não conseguir respirar seja ignorada até seu completo silenciamento.

    Pede-se agora menos polícia, mais bem-estar. Pede-se o recuo do protagonismo absoluto da polícia na produção da segurança pública e o repensar profundo das bases que orientam o policiamento. Os sistemas integrados de proteção social são o horizonte da sociedade civil que protesta, exigindo da polícia que consuma menos dinheiro e que repense sua razão de ser. Os recursos devem ser destinados às políticas de suporte social das comunidades negras, políticas redistributivas, na construção da reconciliação e da democracia americana em direção a uma sociedade menos violenta. São os novos ventos do norte a insuflar uma ruptura nas concepções e nos saberes sobre “justiça” e “vida segura”.

    [1] Para conhecer mais: https://www.nytimes.com/2020/06/05/us/defund-police-floyd-protests.html, https://www.theguardian.com/us-news/2020/jun/04/defund-the-police-us-george-floyd-budgets, https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2020/06/07/policia-de-minneapolis-sera-desmantelada-e-reconstruida-camara-municipal.htm

     

    Jacqueline Sinhoretto, socióloga, professora da Universidade Federal de São Carlos, coordenadora do GEVAC UFSCar.

  • Discursos políticos, mídias e violência: percursos teóricos e notas de pesquisa

    Autores:  Henrique Macedo e Jacqueline Sinhoretto
    Medo e insegurança têm sido capitalizados por discursos políticos e empresas de comunicação, construindo uma comunicação pública sobre a violência pautada em visão hegemônica, com espaço reduzido para políticas públicas alternativas ou inovadoras. O artigo recupera o debate sobre mídia e poder na teoria social, bem como as principais pesquisas brasileiras sobre representações sociais da violência e sobre a cobertura do tema nos jornais e nos programas de TV. Nossas pesquisas apontam o uso de novas mídias para fomentar uma comunicação pública baseada em discursos populistas e punitivistas sobre políticas de segurança, indicando um aprisionamento em práticas culturais que produzem violência.

    O capítulo “Discursos políticos, mídias e violência: percursos teóricos e notas de pesquisa” foi publicado no livro “Comunicação, políticas públicas e discursos em conflito”, organizado por Heloiza Matos e Patrícia Gil (2019).

    Acesse o e-book neste link. 

     

  • Pesquisa aborda prisionização dos familiares dos gestores penitenciários

    A dissertação de mestrado de EDUARDO HENRIQUE ROSSLER JUNIOR, chamada “A vila e a prisão: Novas perspectivas do conceito de prisionização” foi defendida junto ao PPGS-UFSCar e produzida no GEVAC.

    O trabalho mobiliza a sociologia da memória para reconstruir a vida das crianças que residiram nas vilas destinadas aos gestores em penitenciárias paulistas. Faz parte de contar a história recente das prisões em São Paulo. Assista ao vídeo para saber mais: video gevac.

  • Controle do crime e seus operadores

    Autora: Giane Silvestre

    A pesquisa aprofunda a base empírica que fundamenta a compreensão das transformações contemporâneas no campo do controle do crime. Aborda a visão dos operadores policiais e judiciais sobre o seu próprio trabalho e sobre as possibilidades e limites do controle do crime após o fortalecimento da organização do Primeiro Comando da Capital, considerado pelos interlocutores o principal problema da segurança pública paulista. Para tanto, traz dados e análises sobre as políticas de segurança paulistas nas últimas décadas, as mudanças no discurso sobre o crime e o progressivo apoio das autoridades à violência institucional. Aprofunda a compreensão do que Sinhoretto vem nomeando como fortalecimento da estratégia militarizada de controle de crime e o abandono progressivo das estratégias clássicas baseadas em investigação e processamento penal.

    O livro pode ser adquirido na página da editora.

     

     

  • Seminário Violência e Administração de Conflitos

    20 a 22 de Agosto – UFSCar, campus São Carlos
    O seminário Violência e Administração de Conflitos propõe exercitar o debate e a produção acadêmica nos temas da violência, segurança pública, administração institucional de conflitos, justiça, punição, buscando interpretar as desigualdades existentes nas práticas sociais nesse campo, em especial as desigualdades raciais. Pesquisadores importantes para a área estão convidados para compor as conferências e mesas redondas. Para os grupos de trabalhos esperamos receber um número significativo de pesquisadores para elevar a qualidade do debate. Contamos com sua presença! Inscreva-se.

     

    Todas as informações necessárias para a inscrição, participação, datas e programações do seminário podem ser encontradas em https://www.doity.com.br/seminario-internacional-gevac
    Em 2019 o GEVAC UFSCar completa 10 anos de atividades. É também um ano de muitos desafios para a área de pesquisa sobre violência, justiça criminal e prisões dadas as mudanças de orientação nas políticas públicas em nível federal e também nos estados. Propostas de radicalização do uso da violência institucional, desprestígio das políticas de prevenção à violência e justiças alternativas, uma composição legislativa afeita a propostas de cunho punitivista, propostas de alterações penais, crescente militarização da segurança pública e de políticas educacionais. O seminário se propõe a discutir os desafios atuais da área e a avançar na construção conjunta de interpretações teóricas das transformações do presente. Procurará também produzir um debate metodológico sobre o fechamento de fontes de pesquisa e a animosidade dos novos governos com a produção independente de conhecimento no país. O momento pede a concentração de esforços em metodologias alternativas e em estratégias criativas para driblar as dificuldades de acesso ao campo. Pede mais do que nunca a cooperação e o intercâmbio entre os pesquisadores associados em rede para lidar com as dificuldades colocadas à pesquisa nas instituições de controle do crime e à escassez de financiamento à pesquisa.
    O envio de resumos e textos para os Grupos de Trabalho será exclusivamente através do link: https://www.doity.com.br/seminario-internacional-gevac
    As normas para envio e formatação de resumos para os grupos de trabalho podem ser acessadas aqui: edital seminario 10 anos
    O seminário conta com financiamento de fontes como CNPq, FAPESP, INCT-InEAC e Fundação Perseu Abramo, e o apoio do PPGS-UFSCar e da Proex-UFSCar.

  • ‘Vítimas inocentes pagam o preço da política equivocada de enfrentamento do crime organizado’- Via CBN

    A questão da segurança foi tema de discussão no Estúdio CBN. O jurista e comentarista da CBN Wálter Maierovitch, a professora de direito Eloisa Machado e a professora de sociologia Jacqueline Sinhoretto falaram sobre a transferência de 22 detentos da maior facção criminosa do estado de São Paulo e o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro.

     

    Wálter Maierovitch e Jacqueline Sinhoretto falaram sobre segurança pública no Estúdio CBN. Foto: Vinícius Custódio/CBN (Crédito: )

    Wálter Maierovitch e Jacqueline Sinhoretto falaram sobre segurança pública no Estúdio CBN. Foto: Vinícius Custódio/CBN

     

    Acesse o áudio da entrevista : ‘Vítimas inocentes pagam o preço da política equivocada de enfrentamento do crime organizado’- Via CBN.

  • A morte de Marcelo Yuka e o que sua história nos diz sobre desarmamento – Via Justificando

    No Brasil de hoje existem mais de 15 milhões de armas de fogo circulando por aí. Os índices de mortes por armas de fogo, em 2003, chegaram a 71,1%

    Por Eduardo Rossler

     

    Dia 9 de Novembro de 2000. Em uma esquina do Rio de Janeiro, Marcelo Yuka tentava impedir que assaltantes levassem o carro de uma mulher. Depois de 15 disparos contra o músico, um dos tiros acertou a segunda vértebra. Ele estava paraplégico e, sem seus movimentos, foi tolhido dele, a capacidade de tocar seu instrumento, a bateria.

    O meu respeito pelo legado dele é grande. Ele fez parte de um grande movimento da música popular brasileira, que se inicia no começo da década de 1990, onde houve um dos raros momentos em que a política e a arte se uniram de maneira intrínseca, inseparável. O Rappa, Skank, Titãs, Chico Science, Planet Hemp, e uma série de outros artistas que tomaram para si a missão de dar voz a um país recém democratizado, dando continuidade ao trabalho de resistência da música brasileira, nos anos de chumbo. Yuka fez parte dos intelectuais da arte que tiraram da invisibilidade uma infinidade de questões, apagadas por décadas de repressão, e ainda poucos discutidas. A produção musical dos invisíveis tinha, finalmente, seus representantes. A arte saiu das elites. Essa foi sua importância. Mas não só.

    Yuka foi uma das milhares de vítimas brasileiras da violência endêmica que assola o país. E mais do que isso, Yuka foi vítima de uma arma de fogo. Se ele estivesse armado, teria sido diferente? É uma questão importante, mas impossível de ser respondida de maneira absoluta. A história não tem “se”.

    O que pode ser dito é que no Brasil de hoje existem mais de 15 milhões de armas de fogo circulando por aí. É possível, ainda, afirmar que em 2014 quase 45mil pessoas foram mortas, vítimas de armas de fogo (Um crescimento de 592% em relação a série histórica 1980-2014).

    Mas o dado mais importante está aqui: Nessa série histórica, o crescimento das mortes não foi constante. Entre 1980 e 2003 tivemos uma constante de crescimento ininterrupta de ~8% no número de mortes por armas de fogo.

    Após esse período, há uma estagnação no crescimento: ~0.3% no aumento de mortes por armas de fogo. E o que aconteceu neste período?

    Dentre outras iniciativas, a promulgação do Estatuto do Desarmamento (2005). E neste ponto, é preciso que haja uma compreensão clara dos efeitos desta lei. Segundo o Atlas da Violência (2018):

    “A partir do grave processo de estagnação econômica que ocorreu no começo dos anos 1980, justamente no momento que houve uma profunda transição de uma sociedade majoritariamente agrária para uma urbana, as tensões sociais aumentaram, sem que o Estado brasileiro conseguisse responder aos novos desafios impostos, e, efetivamente, provesse boas condições de segurança pública para a população (Cerqueira, 2014). Nesse contexto, a população angustiada e insegura com esse cenário procurou se defender pelos seus próprios meios, quando passou a adquirir gradativamente serviços de segurança privada e armas de fogo. Começa aí, em meados de 1980, uma verdadeira corrida armamentista no país só interrompida em 2003, por conta do Estatuto do Desarmamento.” (p. 71)

    Os índices de mortes por armas de fogo, em 2003, chegaram a 71,1%. A titulo de comparação, o atlas nos mostra o desequilíbrio desse número com a média de outros países, como por exemplo, a média dos países da Europa (19,3%). Os dados do Mapa da Violência (2016) também indicam a importância do Estatuto do Desarmamento no controle das mortes por armas de fogo:

    “[…] as políticas de desarmamento, se conseguiram sofrear a tendência do crescimento acelerado da mortalidade por armas de fogo imperante no país, não foram constantes ao longo do tempo – sofreram interrupções, abandonos e retomadas – nem foram complementadas com outras estratégias e reformas necessárias para reverter o processo e fazer os números regredirem. Mas resultado evidente, pelos dados, que o ímpeto anterior da escalada homicida foi drasticamente abafado.” (p. 14)”

    Indo ao encontro dos relatórios, não cabe aqui afirmar que a estagnação do aumento no número de mortes por armas de fogo a partir de 2003 seja uma consequência apenas do Estatuto do Desarmamento. O que se observa é que esta lei teve efeitos positivos e muito importantes no controle e distribuição de armas, e teve papel decisivo no enfrentamento das violências causadas por armas de fogo.

    Além disso, ao adentrarmos ainda mais os dados fornecidos, observaremos que no início da série história observada (1980), 70% dos homicídios eram por armas de fogo, número que se expande para 94,3% em 2014. Nessa afirmação, podemos concluir que a quase totalidade destas mortes não foram causadas por outros fatores que não a deliberada iniciativa de matar.

    Seguindo dados da UNESCO (2005), temos que no ano de 2003, 34,4% das mortes de jovens (15-24), foram causadas por armas de fogo. Isso corresponde a 1 em cada 3 pessoas. A gravidade da questão coloca as armas de fogo em 3º no ranking das principais causas de morte (perdendo apenas para doenças do coração e cerebrovasculares).

    Após a promulgação do Estatuto do Desarmamento, essa escalada de mortes teve seu percentual profundamente reduzido. O esforço de redução da circulação de armas de fogo produziu efeitos extremamente importantes. Os dados mostram que se considerarmos a diferença entre a expectativa de crescimento constante de ~8% no número de mortes e os dados coletados após 2003 veremos, em números, os resultados dessa politica:

    Os dados mostram claramente uma importante redução dos HAF (Homicídios por Arma de Fogo), ao compararmos os homicídios registrados, e os previstos. Segundo o relatório, 133.987 vidas foram poupadas através de iniciativas como esta.

    Yuka foi uma em tantas outras vítimas da escalada do armamentismo no Brasil. Não a toa, o Rio de Janeiro ocupava a 1ª posição entres as UF’s em relação as taxas de homicídios.

    Outro dado interessante: O Brasil ocupa a 4ª posição entre os maiores exportadores de armas do mundo. Quem ganha com isso? 

    Paz sem voz não é paz. É medo.

    Nem a morte pode calar uma voz que precisa ser ouvida.
    Vá em paz e sem medo, Yuka.

     

    ACESSE : A morte de Marcelo Yuka e o que sua história nos diz sobre desarmamento.

  • Homicídio contra mulher e feminicídio demandam políticas públicas específicas -Via G1

    Por Giane Silvestre e Ariadne Natal, Núcleo de Estudos da Violência da USP  .

    O ano de 2019 começou com boas e más notícias no que diz respeito ao número de mortes violentas no Brasil. A boa notícia é que houve uma queda de 13% nas mortes violentas em todo o país no ano de 2018(12% se forem considerados apenas os homicídios), conforme divulgado pelo Monitor da Violência na semana passada. A má notícia é que a queda não foi observada na mesma proporção quando as vítimas são mulheres.

    Segundo os dados levantados pela equipe do G1, entre 2017 e 2018 o número de mulheres mortas caiu de 4.558 para 4.254, uma redução de 6,7%, frente uma queda maior dentre os homens.

    No Brasil, no ano de 2018, os homicídios de mulheres representaram cerca de 8,7% dos total de assassinatos no país. Isto significa que, de cada 100 pessoas mortas, mais de 8 delas eram mulheres. Esta distribuição, entretanto, não se deu de maneira homogênea nos diversos estados brasileiros. Enquanto que, em Amapá e Sergipe, 4% das mortes violentas incidiram sobre mulheres, em estados como São Paulo as mulheres representaram 15% das vítimas, chegando a 20% em Mato Grosso do Sul.

    Considerando a diferença na densidade populacional no Brasil, a forma mais adequada de comparar a incidência de casos por estados é por meio do cálculo de mortes por 100 mil habitantes. Em 2018, a média nacional de mulheres assassinadas foi de 4 por 100 mil habitantes. Dentre os estados, Roraima, Ceará e Acre se destacam por taxas muito acima da média nacional, com mais de 8 mortes de mulheres por 100 mil habitantes.

    Existem diferentes formas de registrar as mortes provocadas por terceiros, a depender da situação e das circunstâncias de cada caso, como homicídio e latrocínio, por exemplo. Quando as vítimas são mulheres, as mortes podem ser classificadas como feminicídios se o crime for motivado pela condição de gênero. Isso porque desde 2015 a lei 13.104 inseriu o feminicídio no ordenamento jurídico nacional. Com quatro anos de implementação da lei, podemos dizer que ainda estamos diante de um processo de consolidação dos registros e que o aumento dos números pode ser reflexo do maior emprego da tipificação do feminicídio.

    Segundo os dados levantados pelo Monitor da Violência, 16 unidades da federação tiveram aumento dos registros de feminicídio em 2018 em relação ao ano anterior. Além disso, em oito destes estados cresceu também o registro de homicídio de mulheres, ou seja, não houve uma substituição na tipificação da morte (de homicídio para feminicídio), mas sim um aumento do número de mulheres mortas nas duas situações.

    Dentre os 16 estados que apresentaram aumento no número de feminicídios, destacam-se Paraná, Ceará, Distrito Federal e Rio Grande do Sul com crescimentos acima de 40% e Sergipe com o crescimento de 78%. O estado do Ceará chama a atenção ainda, pois, além do alto número de feminicídios, registrou um aumento de 27% de mortes de mulheres, embora tenha tido uma redução de 15% nas mortes violentas de homens em 2018. Vale lembrar que logo no início de 2018 o Ceará foi palco de uma chacina que vitimou 14 pessoas, sendo 8 mulheres.

    Para além das discrepâncias regionais, os dados apresentados pelo Monitor da Violência indicam que a vitimização de mulheres segue como um problema crônico no Brasil e enraizado na formação da nossa sociedade. A condição de vulnerabilidade das mulheres é construída por questões econômicas, culturais, educacionais e que podem e devem ser alteradas por meio de políticas públicas voltadas à prevenção da violência. A implementação da lei do feminicídio foi um pequeno passo dado na direção de colocar esta questão na esfera pública, combatendo a noção de que a violência contra a mulher seria um problema privado, na qual não se deveria “meter a colher”.

    A dinâmica das mortes que vitima as mulheres possui características distintas daquela que incide sobre os homens e, por esta razão, as políticas de prevenção da violência contra a mulher precisam levar em conta esta especificidade. Muitas das mortes poderiam ter sido evitadas, por exemplo, com o funcionamento eficaz de um sistema de medidas protetivas, interrompendo um ciclo de violência e impedindo desfechos letais.

    ACESSE: Homicídio contra mulher e feminicídio demandam políticas públicas específicas.

  • O pacote anticrime: impactos na política criminal brasileira

    Jacqueline Sinhoretto (UFSCar – GEVAC) e Sérgio Salomão Shecaira debateram o pacote proposto pelo Ministro da Justiça Sergio Moro, na Mesa de Estudos e Debates do IBCCRIM. O vídeo do evento pode ser assistido em:

    https://www.ibccrim.org.br/tvibccrim_video/930-Mesa-de-Estudos-e-Debates-O-pacote-anticrime-impactos-na-politica-criminal-brasileira.

  • A persistência do confinamento – Via Justificando

    Jacqueline Sinhoretto e Daniel Navarro Sonim.

    Um rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto, tem dificuldades para se comunicar e não consegue executar tarefas simples, como amarrar os cadarços dos sapatos nem empacotar compras no mercado onde faz bicos para sobreviver. Seus pais desconfiam que ele sofra de algum transtorno mental, mas não sabem ao certo qual é, porque nunca tiveram condições de procurar um especialista. Os vizinhos o veem com uma pessoa tranquila que nunca se envolve em confusões. Mas certo dia, ele foi levado pela polícia a um presídio e seus pais nunca entenderam porque isso aconteceu. O pai do rapaz é amoroso e preocupado, mas depois da prisão sua face, que estampou os jornais, mostrava dor e tristeza.

    Casos assim se repetem independente da instituição onde ocorre o confinamento: cadeias, hospitais psiquiátricos, clínicas públicas e particulares para tratamento de dependentes químicos. O Juquery, localizado em Franco da Rocha, município da região metropolitana de São Paulo, por exemplo, completou 120 anos em 18 de maio de 2018 e, desde sua fundação recebeu milhares de indivíduos com os mais diversos diagnósticos – ou não! – de doenças mentais e transtornos psicológicos e psiquiátricos. Segundo números oficiais, no apogeu da superlotação, esse complexo psiquiátrico teria abrigado 18 mil pacientes, o dobro de sua capacidade.

    Muitos deles chegavam ao Juquery em camburões da polícia e não portavam qualquer tipo de documento. Ao ingressarem à força naquele novo mundo ganhavam o uniforme com o número e carimbo da instituição na camisa e perdiam o pouco que lhes restava de dignidade tendo os cabelos raspados e os dentes arrancados sem anestesia. Muitos prontuários, que se perderam em um incêndio ocorrido em 2005, tinham nomes como: Ignorado da Silva Um, Ignorado da Silva Dois e assim por diante. Carregavam a marca do sofrimento humano ao serem submetidos a tratamentos cruéis e desumanos que ao invés de promover alívio, causavam dor e agonia.

     

    Com o apoio incondicional do Governo do Estado de São Paulo, das elites industrial e cafeeira, da imprensa e concebido pelo médico psiquiatra Francisco Franco da Rocha, o Juquery nasceu com o intuito de criar um local, afastado da capital, para as pessoas que não se enquadravam nos padrões de normalidade – porque o “louco” não podia fazer parte do cenário urbano.

    Em uma época em que São Paulo se desenvolvia graças à industrialização na capital e à expansão da lavoura cafeeira no interior, quem não tinha condições de trabalhar nas fábricas ou na colheita do café era considerado inútil e inferior, ou seja improdutivo. Esses indivíduos: pessoas com doenças mentais, mendigos, prostitutas, alcoólatras, negros – escravos libertos – e imigrantes europeus e asiáticos, que, sem ocupação, iam acabar perambulando pelas ruas, eram conhecidos na época como alienados – não é à toa que o primeiro nome do Juquery foi Asilo de Alienados – e não deviam impedir o progresso nem se reproduzir e atrapalhar o avanço de raças superiores. Para lá também foram enviados gays e mulheres que não se adequavam aos padrões do casamento e da maternidade, dos homens de bem.

    Se engana quem acha que esse discurso só estava presente na Alemanha Nazista. Ele se repetiu tanto em São Paulo como em outros estados nos quais existiam complexos psiquiátricos não muito diferentes do Juquery – como o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais e a Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.

    Quando o Juquery completou um século de existência, em 1998, o perfil dos pacientes não era muito diferente daquele da inauguração. Segundo a Associação SOS Saúde Mental, dos 1.670 pacientes, apenas 25% eram pessoas com doenças mentais. Os sobreviventes internados há décadas apenas comiam, dormiam e, às vezes, iam aos pátios tomar banho de sol. Queixas de má alimentação e falta de higiene eram constantes.

    Em 2017, uma conversa com um jovem usuário do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), em Parelheiros, bairro de São Paulo, mostrou como as pessoas que precisam de tratamento, principalmente na periferia, embora circulem com certa liberdade pela cidade, ainda vivem trancafiadas no estigma de “louco” que deve permanecer afastado das pessoas consideradas “sãs”. O jovem contou que fazia tratamento psiquiátrico desde a adolescência sem deixar de tomar os remédios um dia sequer. Disse que estava feliz por causa da mudança de endereço do Caps. “Eu tinha que passar na frente de um supermercado. Meus amigos podiam me ver e pensar que sou louco. Aqui é mais longe de onde eu moro, mas posso vir tranquilo, porque sei que ninguém vai me ver entrando aqui!”, revelou.

    Já em 2018, os pais do rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto – do primeiro parágrafo – continuam sem entender porquê ele foi levado pela polícia a um presídio. E os familiares dos pacientes que morreram no Juquery ao longo dos seus 120 anos de existência nunca vão saber o que realmente aconteceu com seus entes queridos. Na madrugada de 17 de dezembro de 2005, um incêndio atingiu o setor administrativo e a biblioteca da instituição. O fogo queimou um vasto acervo de livros de psiquiatria e praticamente todos os prontuários médicos, reduzindo a cinzas a memória dos pacientes que por lá passaram.

    Quando se fala em saúde mental, ainda acontecem abusos, formas controversas de tratamento e inúmeros casos de internações forçadas, hoje estimuladas por projetos higienistas que se voltam contra moradores de rua e usuários de drogas. Já nas prisões, dos 665 mil detentos no Brasil, 221 mil (34%) esperam julgamento, muitos deles por anos a fio. A população carcerária no Brasil é majoritariamente jovem, pobre, negra, de baixa escolaridade.

    Renato da Silva Moraes Junior é o nome do rapaz que aparece no primeiro parágrafo deste artigo. Ele tem 23 anos e estava entre as 159 pessoas detidas em 7 de abril de 2018 durante uma festa em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, acusadas de envolvimento com a milícia. Renato ficou preso até 26 de abril e só foi solto após ser submetido a uma avaliação psiquiátrica. O subcoordenador de Defesa Criminal da Defensoria Pública do Rio, Ricardo André, já tinha informado que Renato, embora não seja usuário de Caps, fazia acompanhamento em uma Clínica da Família, onde tinha sido diagnosticado com “retardo mental leve”. Durante o período em que permaneceu preso, de acordo com seus pais, foi privado de tomar a medicação receitada por seu médico.

    Embora a luta antimanicomial tenha promovido inúmeros avanços no Brasil, o confinamento continua estruturando nossas formas de pensar, agir e organizar o controle social. Se antes o confinamento era realizado em instituições como o Juquery, hoje o confinamento dos indesejáveis, dos que perturbam a ordem pública, dos que devem ser afastados dos olhares e da convivência, dos improdutivos, é realizado em centenas de presídios superlotados pelo país todo.

     

    Metade da população prisional está confinada por crimes contra o patrimônio e metade destes foram cometidas em ações sem o uso da violência. Um terço dos presos está confinado por envolvimento em comércio de entorpecentes ilícitos, destes, a imensa maioria nunca empunhou uma arma de fogo.

    A pobreza – absoluta ou relativa – é o que leva esses contingentes de jovens – na maioria negros – a tentar a vida em atividades ilegais. E a receita majoritária para lidar com os delitos de circulação da riqueza é o confinamento. Especialmente num momento da história em que são derrotados os projetos políticos que investem em direitos sociais como saúde, educação, cultura, renda. Pobres, pessoas com distúrbios psicológicos e psiquiátricos, deficientes e doentes mentais, ou apenas mentes ousadas, não têm como perspectiva usufruir da assistência pública à saúde mental, ao emprego apoiado, às alternativas de renda, ao desenvolvimento da cultura, à participação social como forma de recriar sentidos para a vida.

     

    No interior dos presídios sucedem-se as denúncias de inúmeras formas de maus-tratos, que nunca são eliminados ou amenizados, nem mesmo com a força de organização e pressão das facções criminais. A realidade das instituições de confinamento em 2018 se assemelha à do Juquery no passado: comida estragada, banho gelado, ausência de lugares para dormir, ausência de instalações sanitárias, doenças comuns como sarna, tuberculose, infecções por piolhos. Pessoas com deficiências e doenças mentais continuam sem medicação ou qualquer forma de assistência. Adolescentes internados em unidades socioeducativas são entupidos de remédios com a finalidade de limitar suas capacidades de ação e resistência, para que fiquem calmos e não deem trabalho. A tortura física está no horizonte de todas as instituições de confinamento, seja por meio de celas de isolamento, do incentivo a rivalidades internas, ou da pura e simples porrada. Como se fazia antes, como se faz agora.

    O mês da luta antimanicomial também deve servir para nos darmos conta do quão arraigadas são as práticas do confinamento com objetivos de controle social. É impressionante como são similares os padrões perversos do confinamento, que antes eram socialmente justificados em nome de livrar a sociedade dos loucos, e hoje continuam sendo praticados em formas muito semelhantes em nome de livrar os homens de bens dos criminosos.

    A história se apaga, se transmuta, mas seus aspectos mais cruéis e dolorosos continuam se repetindo como se tempo nunca tivesse passado, no manicômio ou na prisão.

    Jacqueline Sinhoretto é Socióloga, professora de Sociologia da UFSCar e coordenadora do GEVAC. Autora do Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil. 

    Daniel Navarro Sonim é Jornalista, palestrante e escritor. Autor, junto com Walter Farias, do livro O Capa-Branca – de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil.

    ACESSE: A persistência do confinamento .

  • Taxa de negros mortos pela polícia de SP é 3 vezes a de brancos, diz estudo – Via G1

    Policiais envolvidos, entretanto, são, em sua maioria, brancos (79%).Professora da UFSCar fala em ‘racismo institucional’; SSP analisará dados.

    Thiago ReisDo G1, em São Paulo

    26/03/2014 07h58 – Atualizado em 26/03/2014 13h58

    Letalidade policial em SP (Foto: Arte/G1)

    O índice de negros mortos em decorrência de ações policiais a cada 100 mil habitantes em São Paulo é quase três vezes o registrado para a população branca e a taxa de prisões em flagrante de negros é duas vezes e meia a verificada para os brancos. É o que mostra um estudo da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que será divulgado oficialmente no dia 2 de abril.

    Os dados revelam que 61% das vítimas da polícia no estado são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. Já os policiais envolvidos são, em sua maioria, brancos (79%), sendo 96% da Polícia Militar.

    A coordenadora da pesquisa, Jacqueline Sinhoretto, diz que existe hoje um “racismo institucional”. “Não é que o policial como pessoa tenha preconceito. É o modo como o sistema de segurança pública opera, identificando os jovens negros como perigosos e os colocando como alvos de uma política violenta, fatal”, diz.

    O estudo sobre a letalidade policial, feito pelo Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da universidade, levou em conta 734 processos da Ouvidoria, de 2009 a 2011, com 939 vítimas.

    Procurada pelo G1, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo diz que não teve acesso ao teor e à metodologia da pesquisa, “o que a impede de fazer comentários mais precisos sobre as conclusões”. “No entanto, os dados do estudo serão avaliados pela SSP e pelas polícias. O objetivo é definir se os dados apurados podem subsidiar aprimoramentos das políticas públicas de segurança”, informa, em nota.

    Quando os dados de mortes de 2011 de negros (193) e brancos (131) são comparados à população de cada etnia residente em SP, a taxa de negros mortos por 100 mil fica em 1,4, contra 0,5 dos brancos. Segundo os números da pesquisa, a população de negros no estado de São Paulo é de 14,3 milhões e a de brancos, 26,4 milhões.

    “Isso é grave. Só o fato de a polícia ter um grau de letalidade tão alto já é muito problemático para uma democracia. Quando isso ainda contém um viés racial tão claro é porque a gente está diante de uma desigualdade, produzida por uma política de segurança definida”, afirma Jacqueline.

    Para ela, uma das causas da alta letalidade policial é a impunidade. A pesquisa revela que 94% dos inquéritos policias do período foram concluídos sem indiciar nenhum policial. Em 73% deles, a razão apontada pelos delegados foi a de que “não houve crime de homicídio por parte dos policiais”.

    Existe um racismo institucional. Não é que o policial como pessoa tenha preconceito. É o modo como o sistema de segurança pública opera, identificando os jovens negros como perigosos e os colocando como alvos de uma política violenta, fatal”
    Jacqueline Sinhoretto, coordenadora da pesquisa da UFSCar

    Com relação à Corregedoria, 60% dos processos identificaram que não houve transgressão disciplinar na conduta dos policiais. “Eles fazem isso sem realizar uma investigação mais aprofundada. O que a gente viu nos autos é que a conclusão é feita de maneira sumária. É um pressuposto de que a polícia atirou porque a pessoa era criminosa”, diz a coordenadora do estudo.

    “A morte violenta, no entanto, ocorre muito precocemente. Isso indica que outras políticas de prevenção e repressão ao crime não foram nem sequer tentadas com esses cidadãos, isto supondo que eles realmente cometeram crimes, porque se não há apuração, não se pode afirmar se eles foram mesmo mortos porque cometeram delitos”, complementa.

    Jacqueline diz que há atualmente uma “conivência” de todas as esferas com a política violenta exercida em São Paulo.

    Prisões em flagrante
    A pesquisa também fez um recorte das prisões em flagrante por homicídio e roubo realizadas no estado de 2008 a 2012, com base nos dados da Secretaria da Segurança Pública. Os negros foram novamente maioria.

    Quando os dados de prisões de 2012 de negros (3.592) e brancos (2.682) são comparados à população de cada etnia residente em SP, a taxa de negros presos a cada 100 mil fica em 35, ante 14 dos brancos. “Isso mostra que a polícia está fazendo a vigilância e a repressão, violenta ou não, privilegiando claramente os jovens negros, de modo racializado”, afirma.

    ACESSE : Taxa de negros mortos pela polícia de SP é 3 vezes a de brancos, diz estudo .

  • Negros são a maioria entre as vítimas da Polícia, diz pesquisa – Via afroPress

    Da Redação, com informações da Assessoria da UFSCar
    S. Carlos/SP – Negros são maioria entre vítimas de mortes cometidas por policiais, são mais presos em flagrante e mais visados em abordagens. Essas são as conclusões da pesquisa inédita feita por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sobre o racismo na Polícia Militar do Estado de S. Paulo. Os dados obtidos em entrevistas com policiais, observação das abordagens e análise de dados estatísticos mostram que os policiais matam e prendem mais pessoas negras do que brancas.

    De acordo com os números da pesquisa, em S. Paulo, nos anos de 2010 e 2011, entre as vítimas de mortes cometidas por policiais, 58% são negras, ao passo que na população residente do Estado o percentual de negros era de 34%. Para cada grupo de 100 mil habitantes negros, foi morto 1,4, ao passo que, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, foi morto 0,5.

    A pesquisa foi coordenada pela professora Jacqueline Sinhoretto (foto), do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC), do Departamento de Sociologia da UFSCar, e analisou Inquéritos Policiais que tratam de mortes cometidas por policiais e que são acmpanhados pela Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, além de dados obtidos junto à Secretaria de Segurança Pública. Além disso, foram entrevistados oficiais e praças da PM.

    Segundo a coordenadora, estes números deixam evidente a ausência de políticas de segurança pública para a população negra, que culmina nas altas taxas de mortalidade por homicídio neste grupo.

    Desigualdade racial e letalidade policial

    Além da produção da desigualdade racial na letalidade policial, a pesquisa constatou ainda que a vigilância policial é operada de modo racializado. Em São Paulo, a taxa de flagrantes de negros é mais que o dobro da verificada para brancos. Segundo Sinhoretto, estes dados expressam que a vigilância policial privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitos criminais, flagrando em maior intensidade as suas condutas ilegais, ao passo que os brancos gozam de menor vigilância da polícia para suas atividades criminais.

    Os resultados do trabalho serão apresentados em evento da Escola da Defensoria Pública do Estado de S. Paulo, marcado para o dia 02 de abril, às 09h30 no Auditório da Rua Boa Vista, 200, na região central da capital.

    ACESSE : Negros são a maioria entre as vítimas da Polícia, diz pesquisa .

  • Pesquisa da UFSCar aponta desigualdade racial na ação da PM em São Paulo – Via Geledes

    Pesquisa da UFSCar aponta desigualdade racial na ação da PM em São Paulo

    Data: 

    Pesquisadores constataram que negros são maioria entre vítimas de mortes cometidas por policias, são mais presos em flagrante e mais visados em abordagens.
     
    Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos realizaram uma pesquisa inédita sobre o racismo na ação da Polícia Militar paulista. Os dados obtidos em entrevistas com policiais, observação das abordagens e análise de dados estatísticos mostram que os policiais matam e prendem mais pessoas negras do que brancas.
    Coordenada pela Profa. Dra. Jacqueline Sinhoretto, do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) do Departamento de Sociologia da UFSCar, a pesquisa analisou Inquéritos Policiais que versam sobre mortes cometidas por policias e que são acompanhados pela Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo e ainda dados obtidos junto à Secretaria de Segurança Pública. Além disso, foram entrevistados oficiais e praças da PM.
    A pesquisa descobriu que em São Paulo, nos anos de 2010 e 2011, entre as vítimas de mortes cometidas por policiais, 58% são negras, ao passo que na população residente do estado o percentual de negros é de 34%. Para cada grupo de 100 mil habitantes negros, foi morto 1,4, ao passo que, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, foi morto 0,5. Segundo a coordenadora da pesquisa, estes números deixam evidente a ausência de políticas de segurança pública para a população negra, que culmina nas altas taxas de mortalidade por homicídio neste grupo.
    Além da produção da desigualdade racial na letalidade policial, a pesquisa constatou ainda que a vigilância policial é operada de modo racializado. Em São Paulo, a taxa de flagrantes de negros é mais que o dobro da verificada para brancos. Também segundo Sinhoretto, estes dados expressam que a vigilância policial privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitos criminais, flagrando em maior intensidade as suas condutas ilegais, ao passo que os brancos gozam de menor vigilância da polícia para suas atividades criminais.
    A pesquisa será apresentada em evento da Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, no dia 02 de abril, às 9h30, no Auditório da Rua Boa Vista, 200, na região central da capital.
  • As the World Cup action begins, Brazil’s hard-fought democracy is under threat – Via The Guardian

    Brazil may have shed its dictatorship 25 years ago, but human rights abuses and a military police remain .

    The Guardian , 2014

     

    By the middle of July, the Brazilian government will have spent more than $12bn on hosting the World Cup, but the costs that this mega-event could bear for the country’s identity – an emerging power with a robust democracy – might be far higher. Basic democratic rights such as freedom of expression, association and assembly that have been hard fought for in the more than 30 years since the dictatorship, are now at risk.

    Today, when thousands of tourists pack into the Itaquera stadium in São Paulo for the opening game of the World Cup, it will have been nearly a year since mass demonstrations erupted across the country. The government has not only failed to provide an adequate response, it has also actively sought to repress them.

    ACESSE: As the World Cup action begins, Brazil’s hard-fought democracy is under threat.

  • Jacqueline Sinhoretto-SP precisa explicar os erros de sua política de segurança pública

    SP precisa explicar os erros de sua política de segurança pública, por Jacqueline SinhorettO

    Os números alarmantes da letalidade policial precisam ser melhor estudados por relatórios independentes e por pesquisadores. Mas o mais importante é que eles sejam explicados pela Polícia Militar e pela Secretaria de Segurança Pública, pois eles devem ao público transparência e compromisso. É preciso que o Comando da PM, a SSP e o Governo do Estado de São Paulo expliquem porque aumentaram os confrontos com mortos nas atuações policiais. E expliquem o que está dando errado nas operações policiais para que elas estejam fugindo tanto ao controle e produzindo resultados indesejados com tanta frequência.

    Não obstante, as declarações do governador e o próprio discurso da PM indicam que o crescimento do número de mortos está ligado a uma política de segurança que aposta no confronto violento, ao invés de apostar em investigação e inteligência para realizar o controle do crime. Entrevistas concedidas por policiais civis aos pesquisadores da UFSCar têm abordado a sensação de desprestígio que a polícia investigativa sente diante da gestão Alckmin. Alguns usaram a expressão “sucateamento da Polícia Civil”. Eles percebem um privilégio à PM para atuar em procedimentos sigilosos promovidos em parceria com setores do Ministério Público, atuando num modelo de investigação pouco democrático e com objetivos não muito esclarecidos.

    A outra face desta política de suposta repressão ao crime a qualquer custo é a morte desenfreada de jovens negros. A justificativa oferecida pelos policiais para estas mortes é o combate ao crime e à agressão sofrida pelos policiais. Mas é muito difícil para nós acreditar que as polícias de São Paulo estejam tão despreparadas para realizar o controle do crime a ponto de realmente estarem trocando tiros a esmo nas ruas. Se estão fazendo isto, estão errando duplamente. O crime organizado é altamente hierarquizado, com estruturas organizacionais e financeiras bastante sofisticadas e não é trocando tiro na rua que se irá controlar suas atividades com eficiência. O outro erro é a violência que esta forma de combate produz para a sociedade como um todo, incluindo jovens com menos 20 anos, incluindo os policiais e suas famílias, que ficam vulneráveis a ações de revide.

    Esta política de confronto está amparada numa concepção de segurança pública enviesada e antidemocrática, pois supõe que seja legítimo matar uma parcela da população com a suposta justificativa de preservar a segurança de outra parcela. Além de ser inaceitável esta concepção numa sociedade democrática, ela é ineficiente para este objetivo declarado, pois o crescimento do número de confrontos com a polícia não reduziu o número de roubos praticados e não enfraqueceu as estruturas financeiras do tráfico de drogas. Ou seja, não é verdade que quando a polícia mata mais pessoas a sociedade fica mais segura.

    O outro efeito nefasto da alarmante letalidade policial é a destruição da legitimidade da ação da polícia junto a grandes parcelas da população. Os jovens da periferia desconfiam da ação da polícia e sentem medo quando a polícia está presente. A presença da polícia é fator de insegurança para os jovens negros da periferia, contrariando todas as nossas crenças de que a presença da polícia transmita a sensação de segurança. O descrédito na polícia é muito negativo para a ordem democrática, pois reforça a legitimidade de soluções fora da lei, incluindo a administração de conflitos por agentes vinculados ao crime e a violência cometida com as próprias mãos. Um dos reflexos desta descrença é hoje o apoio, legítimo, dos jovens à extinção da polícia militar e a adesão à bandeira da desmilitarização.

    Jacqueline Sinhoretto, 40, professora do Departamento de Sociologia da UFSCar, líder do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos-GEVAC

  • Jacqueline Sinhoretto – Quem enfrentará Telhada nas urnas?

    Quem enfrentará Telhada nas urnas?

    Telhada ocupa um espaço político que não é novo .
    Jacqueline Sinhoretto ,14  Mai 2015 – 14:42.
    A indicação do Coronel Telhada à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi notícia de jornal e objeto de comentários insatisfeitos nas redes sociais. Isto porque sua trajetória como oficial da Polícia Militar foi marcada por envolvimento em ao menos 36 mortes em decorrência de ação policial. Telhada é visto por integrantes da corporação como um herói por ter liderado o batalhão mais letal, a ROTA, que sob o seu comando recuperou prestígio e desenvolveu técnicas eficazes para driblar constrangimentos institucionais ao poder letal da PM.

    Segundo deputado mais votado do estado, é autor de livros e de perfil do Facebook com milhares de seguidores, que aplaudem suas posições a favor do extermínio dos bandidos, da redução da maioridade penal, críticas dos defensores dos direitos humanos e de todas as propostas de reforma das polícias. É um legítimo representante da “bancada da bala”, que vem sendo preparado por seu partido – o PSDB – para ser um dos políticos mais importantes da legenda em São Paulo. Suas candidaturas são muito bem financiadas e ele dispõe – segundo interlocutores do próprio meio tucano – de assessoria política e de comunicação, além de preparação para disputar não apenas cargos legislativos. Alguns apostam que será candidato majoritário pela legenda tucana em pouco tempo.

    Telhada ocupa um espaço político que não é novo. O que ele representa já foi representado por Erasmo Dias, Maluf, Conte Lopes, Fleury Filho. E por secretários de Alckmin como Saulo de Abreu, Lourival Gomes, Ferreira Pinto.

    A novidade talvez seja a “bancada da bala” passar a disputar ativamente as cadeiras da Comissão de Direitos Humanos, num momento em que aumenta a pressão por reformas no campo da segurança, nas polícias, por controle da letalidade policial. Não que as reformas estejam perto de acontecer, mas a sociedade civil está hoje mais organizada por estas pautas, que incluem a desmilitarização e a extinção da PM. Portanto, é compreensível o movimento de Telhada.

    A pergunta é o que estamos fazendo nós, simpatizantes das pautas de reformas, eleitores de candidatos de esquerda, defensores de direitos humanos, para fazer frente a políticos com as pautas de Telhada no estado de São Paulo? Os candidatos de esquerda em eleições a governador não têm tido a menor chance. Desde a morte de Mário Covas, qualquer perspectiva de reforma da segurança pública desapareceu do debate eleitoral e das ações do governo. O prende-e-arrebenta prospera sendo muito pouco incomodado pela oposição. As pesquisas qualitativas apontam predileção do eleitor pelas pautas da violência do Estado (será isso mesmo?) e abalam a convicção dos comitês de campanha dos partidos, que estão deixando vazio na formulação do discurso crítico consequente para a segurança pública.

    A campanha de Alexandre Padilha mobilizou setores dos movimentos sociais e da universidade para disputar a construção de um programa de governo de segurança com propostas de reformas, mudanças nas concepções de policiamento, propostas de redução de homicídios, em especial de jovens, sobretudo de negros, mecanismos eficazes de controle da letalidade, reversão do mega encarceramento. O programa continha propostas capazes de produzir impacto no controle do crime e na democratização do direito à segurança pelos territórios e pelos segmentos populacionais. Sua construção foi resultado de influências plurais, da participação de diversos grupos de interesse e segmentos de luta. Mas os formuladores do programa não podiam se reconhecer na maior parte do discurso do candidato na televisão. Em espaços de convertidos, Padilha tinha excelente discurso de reformas para a segurança. Na TV prevalecia a força do marketing eleitoral que mandava repetir o programa duro e punitivo do adversário.

    Perdeu-se a eleição e a oportunidade de fazer um debate verdadeiro e profundo sobre segurança pública. Ou antes, o debate ficou restrito aos espaços onde os profissionais do marketing não conseguiram limitá-lo.

    Se Telhada está sendo preparado para suceder Alckmin, quem está sendo preparado para lhe fazer frente, para competir com um programa de ação alternativo? Como foi pensado o investimento dos recursos de campanha a deputados que representam o discurso de reformas na segurança pública? PT e PSOL terão 3 deputados na Comissão de Direitos Humanos, PCdoB nenhum. É pouco. Raul Marcelo, Beth Sahão e Marcia Lia precisarão de suporte partidário para representar os movimentos sociais e defender ações e projetos de lei, além do apoio ativo dos movimentos. E será pouco.

    Já passou da hora dos partidos à esquerda – penso concretamente em PT, PSOL e PCdoB por contarem com excelentes quadros na temática – compreenderem ativamente que, se em Brasília disputam contra os críticos do bolsa-família e dos investimentos sociais do Estado, aqui na pátria bandeirante seus adversários são admiradores da ROTA que se elegem ao repetir que “bandido bom é bandido morto”. É preciso assumir isto como fato e se preparar para enfrentá-lo. É preciso estudar mais, propor melhor, compreender mais profundamente o tema da segurança como política. É preciso preparar melhor os candidatos e os comitês de campanha para constituir e fortalecer propostas de ação e discursos para o eleitor que não vota em Telhada e que não quer entregar a política nas mãos da polícia. É preciso investir em candidatos e em mandatos que tenham perfil para fazer oposição ao discurso de violência.

    Enquanto isto, seguimos contando os mortos da democracia paulista às centenas de milhares, demonstrando que eles são jovens, negros, das periferias, o mesmo público que os anos de governo petista incluíram no mercado de consumo, mas não incluíram no direito à vida e à liberdade.

    *Jacqueline Sinhoretto é professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

  • Jacqueline Sinhoretto: “Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio” – Via Época

    Jacqueline Sinhoretto: “Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio”

    Para socióloga, não há investimento suficiente para proteger o jovem – principal vítima de armas de fogo no Brasil

    IGOR UTSUMI ,15/05/2015 – 18h22 – Atualizado 15/05/2015 19h21

    Brasileiro, homem, 19 anos. Esse é o perfil da principal vítima de armas de fogo no Brasil. A cada 100 mil jovens desta idade, 62,9 morrem por causa de um tiro. Eles estão entre as 42.416 pessoas que morreram baleadas no Brasil em 2012 – que equivale a 116 mortos por dia –, segundo o Mapa da Violência 2015. Deste total, 94,5% foram mortes por homicídio. O estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz foi divulgado nesta semana. (Confira os números na reportagem do G1)

    Para Jacqueline Sinhoretto, socióloga e coordenadora do Grupo de Estudos sobre a Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) da UFSCar, o agravamento do problema está ligado às atuais políticas de segurança pública. Segundo ela, não há investimento suficiente para proteger os jovens. Em vez disso, há uma percepção geral de que crimes devem ser enfrentados com violência. Em entrevista a ÉPOCA, Jacqueline afirma que isso é problemático: “Não gera segurança, mas extermínio”.

    ÉPOCA – Quais suas principais impressões da pesquisa?
    Jacqueline Sinhoretto –
     Acho importante destacar a quantidade de homicídios, que por si só é um número absoluto altíssimo. Mas é preciso observar que essa questão não atinge a todos igualmente. Pelo contrário, é muito bem focalizada: os jovens morrem mais, e entre eles, os jovens negros (foram 142% mais negros que brancos mortos por armas de fogo). Não é algo que declina ao longo dos anos, não é permanência de traço do passado. Isso é vivido no presente, está relacionado à ausência ou fraqueza de políticas públicas para proteção da juventude, especialmente a negra.

    ÉPOCA – Mas a piora nos índices de homicídio não está ligada apenas a esse grupo. Também acontece no quadro geral. Por quê?
    Jacqueline – 
    Está claro que há uma ligação direta com as armas de fogo. O Mapa da Violência mostra que os números provavelmente seriam ainda piores sem o Estatuto do Desarmamento. E também é preciso fazer uma leitura conjunta com o alto índice de letalidade policial. As taxas de violência são muito grandes, mas o número de pessoas que morrem pela mão do próprio Estado como parte das políticas de segurança pública é grave.

    ÉPOCA – Quão grande é o impacto da questão policial?
    Jacqueline –
     Quando pesquisadores de outros países olham os índices brasileiros, acham até que houve imprecisão na pesquisa, que alguém errou ao digitar os dados. Em 2014, na França, a polícia matou seis pessoas no ano inteiro. Aqui é o que se mata em um dia. Os homicídios por policiais militares estão relacionados ao modelo de policiamento adotado na maior parte do Brasil: o criminoso não é visto como alguém que cometeu um delito, mas como um inimigo a ser destruído. Isso tudo gera impressão de que crime precisa ser combatido com mais violência. E essa visão produz mais mortes.

    ÉPOCA – O Mapa da Violência mostra que jovens negros são as maiores vítimas dos homicídios por mortes de fogo. Eles têm 2,5 mais chances de morrer do que jovens brancos. Por quê?
    Jacqueline –
     Justamente porque o modelo de policiamento visa esse grupo. Há uma crença de que o criminoso tem tipo físico específico e cor de pele determinada. O jovem negro tem estigma de criminoso, e pelas políticas de segurança pública atuais, soluções violentas são boas soluções. Isso é problemático porque não gera segurança, mas extermínio. Os jovens negros correm maior risco de morte, mas não existe investimento suficiente em prevenção à violência contra esta população.

    ÉPOCA – Há certa discrepância entre os índices de cada Estado. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, têm diminuído as mortes por armas de fogo, enquanto a situação tem piorado em outras regiões. Por que essa diferença? Aspectos socioeconômicos influenciam?
    Jacqueline – 
    É difícil relacionar só com aspectos socioeconômicos. Comparando os números de 2012 com os de 2002, Roraima foi o terceiro Estado que mais reduziu as taxas de óbito por armas de fogo. Dá para dizer que Roraima é um Estado rico? Não. Minas Gerais teve uma piora e não é um Estado pobre. É mais difícil explicar como esses estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, diminuíram as mortes porque não há uma política clara de redução de homicídios como em Pernambuco, por exemplo. Só há política de aumentar encarceramento. Mas o Mapa do Encarceramento, que vai ser lançado em breve, mostra que prender mais não significa evitar mais homicídios.

    ÉPOCA – E como reverter esse quadro? Que soluções devem ser tomadas?
    Jacqueline – 
    É extremamente importante mudar o modelo de policiamento e as políticas de segurança pública, como já comentei. Medidas que reduzem o número de roubos de celular não são as mesmas que reduzem homicídios. É possível ver várias iniciativas que funcionaram — talvez não do modo exato como gostaríamos, mas com resultados importantes — como o Pacto pela Vida, em Pernambuco, e o Fica Vivo, que durante um tempo funcionou em Minas Gerais, planos que têm metas bem amarradas. Não é que não se sabe o que precisa ser feito; se sabe, mas as políticas de segurança pública não colocam em prática.

    Jovens morrem mais
    Número de jovens, de 15 a 29 anos, assassinados por armas de fogo no Brasil 
    2002 20.567
    2003 21.755
    2004 20.827
    2005 20.336
    2006 20.939
    2007 20.546
    2008 21.475
    2009 21.912
    2010 21.843
    2011 21.594
    2012 23.867

    Fonte: Mapa da Violência 2015

    ACESSE:  Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio .