Author: Assistente

  • A invenção das subjetividades nos mercados de pacificação: um estudo sobre os empreendedores da Favela Turística / RJ

    Autor(a) :Helton Luiz Gonçalves Damas

    Status : Concluído/Doutorado

    Resumo :

    O objetivo principal deste estudo foi compreender o regime contemporâneo de subjetivação nas favelas do Rio de Janeiro, a partir da análise dos processos que envolvem a pacificação desses territórios e o surgimento de novas formas de mercado, tendo como corte empírico , a “favela turística” e a “Autogestão”. O projeto de pacificação representou uma possibilidade de gestão política e econômica de certos territórios escolhidos de acordo com os objetivos estratégicos definidos pelo aparato de poder. Controle, vigilância militarizada e a consequente domesticação dos corpos não podem ser consideradas as únicas formas pelas quais o poder investiu, pois a pacificação também buscou estruturar um campo de ação em que o próprio favelado era sujeito ativo de sua própria transformação pelo empreendedorismo . Nesse sentido, o estudo buscou compreender o processo de subjetivação dos moradores de favela como algo situado no meio de um complexo de aparatos, práticas, maquinações e composições em que foram constituídos e que pressupõe a implicação de relações particulares consigo mesmas, a pesquisa analisou como as interseções entre um conjunto de dispositivos que propiciaram uma articulação estratégica dos modos de condução dos outros com as formas de autogoverno. Para elaboração do estudo, as seguintes áreas da UPP foram tomadas como objeto de análise: Favela Santa Marta, Favela Pavão-Pavãozinho, Ladeira dos Tabajaras / Morro dos Cabritos e Complexo do Alemão. A metodologia utilizada para os propósitos da tese pôde ser realizada consistindo na elaboração de um estudo baseado na análise qualitativa, obtenção de dados por meio de observações diretas e entrevistas semiestruturadas. Como resultado, foi possível observar que a expansão da lógica neoliberal nas favelas pacificadas, por um lado, configurou o empreendedorismo como uma possibilidade para os favelados encontrarem seu “lugar ao sol” e nos demais processos intensificados a individualização do destino e do sujeito pobre, assim como o esvaziamento da esfera pública e dos projetos coletivos.

    Acesse : A invenção das subjetividades nos mercados de pacificação: um estudo sobre os empreendedores da Favela Turística / RJ .

  • Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil

    Autora: Jacqueline Sinhoretto

    A pesquisa é resultado de uma consultoria do GEVAC – UFSCar à Secretaria Nacional de Juventude / Secretaria Geral da Presidência da República para analisar os dados do DEPEN (2005-2012) e do SINASE (2011-2012). A análise mostra o crescimento do número de presos no país, com análises por idade, cor/raça e gênero, por Estados. Inclui comparação entre evolução do encarceramento e das taxas de homicídio. Conclui que o crescimento do encarceramento é impulsionado pela prisão de jovens e de negros e que o crescimento do número de presos não está relacionado à redução de homicídios.

    Acesse aqui

  • Policiamento e relações raciais: estudo comparado sobre formas contemporâneas de controle do crime

    Autor(a) : Jacqueline Sinhoretto , Coordenador  Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo .  Integrantes :  David Esmael Marques da Silva ,Henrique de Linica dos Santos Macedo ,Eduardo Cerqueira Batitucci  ,José Luiz de Amorim Ratton Júnior , Haydée Caruso ,  Luís Felipe Zilli – Integrante .Financiador(es): Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Auxílio financeiro.
    Status: Em andamento (2017)
    Resumo :
    Este projeto destina-se a investigar o modelo de policiamento ostensivo em cinco Unidades da Federação (São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Distrito Federal) a partir dos efeitos de sua atuação sobre os grupos raciais. Pretende-se coletar informações quantitativas sobre o perfil dos presos em flagrante (raça/cor, idade, tipo de delito) para compreender o foco da atuação policial no controle do crime, com base em registros oficiais (boletins de ocorrência) em cada estado. Dados quantitativos sobre o perfil dos mortos em ação policial complementam a análise. Observação direta de práticas de policiamento em locais de grande circulação também será utilizada como técnica para levantamento de dados sobre as abordagens a públicos com diferentes perfis, bem como observação em locais de maior ocorrência de prisões em flagrante. Entrevistas com policiais militares (oficiais e praças) nas cinco UF serão realizadas com o objetivo de compreender como interpretam os dados obtidos, o que pensam das relações raciais e o policiamento, como se posicionam diante das acusações públicas de racismo institucional nas organizações policiais. Desta forma, a pesquisa procura investigar tanto os modelos de policiamento ostensivo, as concepções a ele subjacentes, o desenho das formas mais usuais de policiamento, assim como as práticas dos policiais no cotidiano das operações. A hipótese é a de haver viés racial na produção da segurança pública no Brasil, não necessariamente nas opiniões pessoais dos policiais, mas no próprio desenho das práticas de policiamento que enfocam certos tipos sociais racializados, certas práticas delitivas e certas espacialidades, cujos efeitos são a produção da desigualdade racial nos resultados do policiamento, em especial prisões em flagrante e mortes. A interpretação dos dados se orientará por perceber semelhanças e diferenças nos resultados obtidos nas cinco realidades pesquisadas, procurando ressaltar elementos que permitam reconhecer características organizacionais e contextos políticos que contribuem para a configuração da desigualdade racial ou para sua possível superação.. 
  • Entre o envolvimento no crime e o cumprimento das medidas: uma etnografia dos jovens em medidas socioeducativas da cidade de São Carlos

    Autora: Maria Carolina Schlittler

    O “Salesianos” é uma organização não governamental, com bases na pedagogia católica-cristã de Dom Bosco, localizada na cidade de São Carlos (Estado de São Paulo) e que, entre outros projetos voltados a população das periferias da cidade, executa as medidas socioeducativas em meio aberto aos adolescentes em conflito com a lei da cidade. Nesta dissertação, discorro sobre alguns temas vistos na etnografia que realizei no “Salesianos, onde procurei entender os significados e as relativizações constituídas por meus interlocutores para a experiência do “crime” e do “estar de medida”. Durante o trabalho de campo percebi que os adolescentes interagem com as criminalidades (e com seus atores) de modo flexível e circunstancial, pois é parte constituinte dessa interação o movimento de entrada (s) e saída (s) deles no que eles chamam de “vida do crime”. Dessa forma, foco o “olhar etnográfico” de minha pesquisa nas redes de relações que estes jovens estabelecem com dois grupos de sujeitos que singularizam experiências: a) com a instituição que protagoniza o atendimento aos “adolescentes em conflito com a lei” e b) com os sujeitos que circulam pela chamada “vida no crime”; porque acredito que o caráter flexível e circunstancial dessas relações evidencia a maneira como meus interlocutores se constroem socialmente, tendo em vista a experiência ‘do crime’ e do frequentar medidas socioeducativas. O trânsito deste atores dentro de tais redes de relações é, portanto, a forma que encontrei para compreender o ponto de vista de meus interlocutores no que se refere à prática de ‘crimes’ e ao fato de terem que frequentar obrigatoriamente (conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente) as medidas socioeducativas.

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  • A Violência Letal Intencional no Município de Luziânia – GO: Conflitos interpessoais e a reciprocidade de vingança

    AUTOR : Cedro, André Sales dos Santos

    RESUMO :

    Este trabalho é produto de uma pesquisa de mestrado em andamento vinculada ao departamento de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal de São Carlos (USFCar) e especificamente ao Grupo de Pesquisa sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) sobre orientação da Professora Doutora Jacqueline Sinhoretto. O objetivo é descrever e interpretar as características do crime violento intencional letal no município de Luziânia -GO, como também as motivações por trás das mortes. Pertencente ao estado de Goiás, Luziânia ocupa hoje a 15º posição no ranking nacional de homicídios e a 1º posição no ranking de seu estado segundo os dados do Mapa da Violência de 2012. O artigo aborda a descrição das causas sociais e os contextos de interação em que essas mortes ocorrem, como também os grupos sociais de vítimas predominantes que compõem essas taxas. A pesquisa é de caráter qualitativo, mas são utilizados dados quantitativos secundários para uma melhor compreensão do fenômeno. Os dados quantitativos foram extraídos da plataforma do SIM/Datasus (Sistema de Informação sobre Mortalidade) do Ministério da Saúde, – que nos proporcionaram um panorama geral do fenômeno no município – e dados fornecidos pelo Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros e do Observatório da Polícia Militar de Luziânia. Essas informações são trianguladas com dados a respeito das percepções da população civil luzianiense e os discursos das instituições municipais que lidam com a segurança pública, gerados a partir de um recorte etnográfico e entrevistas com atores relevantes. Além disso, são utilizados os crimes de homicídio e latrocínio divulgados em mídias digitais como Facebook© e WhatsApp© porque trazem as perspectivas dos moradores em torno do fenômeno. A principal hipótese discutida a partir das pesquisas antecedentes com referência ao contexto da capital paulista entre as décadas de 1980 e 1990, é que este fenômeno que ocorre no município de Luziânia é decorrência de conflitos interpessoais e de um sistema de reciprocidade de vingança.

    ACESSE: A Violência Letal Intencional no Município de Luziânia – GO: Conflitos interpessoais e a reciprocidade de vingança

  • Violência letal intencional no Município de Luziânia – GO: Conflitos interpessoais e a reciprocidade de vingança

    Autor (a) :Cedro, André Sales dos Santos

    Status : concluído /Mestrado

    Resumo :

    Luziânia é um município do estado de Goiás, localizado em uma das regiões mais violentas do país, segundo diversas bases de dados nacionais. Este trabalho visa compreender a violência letal que afeta o município. Como a violência, especialmente a violência letal, ocorre nas interações entre os sujeitos, foram estudadas as relações e interconexões de reciprocidade que produzem morte violenta. Assim, nos concentramos nas percepções que a população de Luzian faz da violência letal, especialmente crimes como homicídios e roubos. Portanto, pretendeu-se descrever as causas sociais e os contextos em que esses crimes ocorrem, além de identificar os grupos sociais predominantes que compõem essas taxas. Para tanto, investigamos – por meio de pesquisa de campo, reportagens e entrevistas com moradores, policiais, funcionários públicos e privados ligados a este tema – questões relacionadas à violência letal, envolvendo discursos e narrativas sobre os conflitos que levam à morte. Representações atribuídas à violência letal também são proeminentes, especialmente aquelas compartilhadas em mídias digitais como Facebook e WhatsApp. Consequentemente, concluiu-se que esses conflitos, que são gerados nas relações interpessoais entre os sujeitos, são resolvidos por meio da violência física com a intenção de extinguir a vida do adversário, o que contribui para espirais de vingança e altos índices de morte violenta. especialmente aqueles compartilhados em mídia digital como Facebook e WhatsApp. Consequentemente, concluiu-se que esses conflitos, que são gerados nas relações interpessoais entre os sujeitos, são resolvidos por meio da violência física com a intenção de extinguir a vida do adversário, o que contribui para espirais de vingança e altos índices de morte violenta. especialmente aqueles compartilhados em mídia digital como Facebook e WhatsApp. Consequentemente, concluiu-se que esses conflitos, que são gerados nas relações interpessoais entre os sujeitos, são resolvidos por meio da violência física com a intenção de extinguir a vida do adversário, o que contribui para espirais de vingança e altos índices de morte violenta.

     

    ACESSE: Violência letal intencional no Município de Luziânia – GO: Conflitos interpessoais e a reciprocidade de vingança

  • Apresentação da dissertação de mestrado , André Sales S. Cedro”Violência Letal em Luziânia-GO: conflitos interpessoais e reciprocidade da vingança”.

    No dia  14 de julho de 2018 , André Sales S. Cedro , apresentou sua dissertação de mestrado :”Violência Letal em Luziânia-GO: conflitos interpessoais e reciprocidade da vingança”.

    Na dissertação, André descreve e analisa a tragédia da morte violenta da juventude pobre (negra), sem acesso a estudo e trabalho, sem direito a cidade, reproduzindo padrões violentos de sociabilidade.

    O advento das mídias digitais e seu impacto na reprodução dos discursos sobre a violência foi analisado, em uma abordagem original e muito contemporânea.

    Agradecemos aos professores Arthur Trindade, Fabio Sanchez e Maria Moraes pelas contribuições e leituras refinadas do texto.

     

  • Apresentação da tese de Doutorado de Helton : invenção das subjetividades no turismo de favela.

    No dia 29 de agosto de 2018 , Helton Damas , defendeu a tese de doutorado : a invenção das subjetividades no turismo de favela.A banca foi composta por : Márcia Leite, Bianca Freire- Medeiros, Cibele Risek e Isabel Georges.

  • A persistência do confinamento – Via Justificando

    Jacqueline Sinhoretto e Daniel Navarro Sonim.

    Um rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto, tem dificuldades para se comunicar e não consegue executar tarefas simples, como amarrar os cadarços dos sapatos nem empacotar compras no mercado onde faz bicos para sobreviver. Seus pais desconfiam que ele sofra de algum transtorno mental, mas não sabem ao certo qual é, porque nunca tiveram condições de procurar um especialista. Os vizinhos o veem com uma pessoa tranquila que nunca se envolve em confusões. Mas certo dia, ele foi levado pela polícia a um presídio e seus pais nunca entenderam porque isso aconteceu. O pai do rapaz é amoroso e preocupado, mas depois da prisão sua face, que estampou os jornais, mostrava dor e tristeza.

    Casos assim se repetem independente da instituição onde ocorre o confinamento: cadeias, hospitais psiquiátricos, clínicas públicas e particulares para tratamento de dependentes químicos. O Juquery, localizado em Franco da Rocha, município da região metropolitana de São Paulo, por exemplo, completou 120 anos em 18 de maio de 2018 e, desde sua fundação recebeu milhares de indivíduos com os mais diversos diagnósticos – ou não! – de doenças mentais e transtornos psicológicos e psiquiátricos. Segundo números oficiais, no apogeu da superlotação, esse complexo psiquiátrico teria abrigado 18 mil pacientes, o dobro de sua capacidade.

    Muitos deles chegavam ao Juquery em camburões da polícia e não portavam qualquer tipo de documento. Ao ingressarem à força naquele novo mundo ganhavam o uniforme com o número e carimbo da instituição na camisa e perdiam o pouco que lhes restava de dignidade tendo os cabelos raspados e os dentes arrancados sem anestesia. Muitos prontuários, que se perderam em um incêndio ocorrido em 2005, tinham nomes como: Ignorado da Silva Um, Ignorado da Silva Dois e assim por diante. Carregavam a marca do sofrimento humano ao serem submetidos a tratamentos cruéis e desumanos que ao invés de promover alívio, causavam dor e agonia.

     

    Com o apoio incondicional do Governo do Estado de São Paulo, das elites industrial e cafeeira, da imprensa e concebido pelo médico psiquiatra Francisco Franco da Rocha, o Juquery nasceu com o intuito de criar um local, afastado da capital, para as pessoas que não se enquadravam nos padrões de normalidade – porque o “louco” não podia fazer parte do cenário urbano.

    Em uma época em que São Paulo se desenvolvia graças à industrialização na capital e à expansão da lavoura cafeeira no interior, quem não tinha condições de trabalhar nas fábricas ou na colheita do café era considerado inútil e inferior, ou seja improdutivo. Esses indivíduos: pessoas com doenças mentais, mendigos, prostitutas, alcoólatras, negros – escravos libertos – e imigrantes europeus e asiáticos, que, sem ocupação, iam acabar perambulando pelas ruas, eram conhecidos na época como alienados – não é à toa que o primeiro nome do Juquery foi Asilo de Alienados – e não deviam impedir o progresso nem se reproduzir e atrapalhar o avanço de raças superiores. Para lá também foram enviados gays e mulheres que não se adequavam aos padrões do casamento e da maternidade, dos homens de bem.

    Se engana quem acha que esse discurso só estava presente na Alemanha Nazista. Ele se repetiu tanto em São Paulo como em outros estados nos quais existiam complexos psiquiátricos não muito diferentes do Juquery – como o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais e a Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.

    Quando o Juquery completou um século de existência, em 1998, o perfil dos pacientes não era muito diferente daquele da inauguração. Segundo a Associação SOS Saúde Mental, dos 1.670 pacientes, apenas 25% eram pessoas com doenças mentais. Os sobreviventes internados há décadas apenas comiam, dormiam e, às vezes, iam aos pátios tomar banho de sol. Queixas de má alimentação e falta de higiene eram constantes.

    Em 2017, uma conversa com um jovem usuário do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), em Parelheiros, bairro de São Paulo, mostrou como as pessoas que precisam de tratamento, principalmente na periferia, embora circulem com certa liberdade pela cidade, ainda vivem trancafiadas no estigma de “louco” que deve permanecer afastado das pessoas consideradas “sãs”. O jovem contou que fazia tratamento psiquiátrico desde a adolescência sem deixar de tomar os remédios um dia sequer. Disse que estava feliz por causa da mudança de endereço do Caps. “Eu tinha que passar na frente de um supermercado. Meus amigos podiam me ver e pensar que sou louco. Aqui é mais longe de onde eu moro, mas posso vir tranquilo, porque sei que ninguém vai me ver entrando aqui!”, revelou.

    Já em 2018, os pais do rapaz de vinte e poucos anos, pobre, negro e analfabeto – do primeiro parágrafo – continuam sem entender porquê ele foi levado pela polícia a um presídio. E os familiares dos pacientes que morreram no Juquery ao longo dos seus 120 anos de existência nunca vão saber o que realmente aconteceu com seus entes queridos. Na madrugada de 17 de dezembro de 2005, um incêndio atingiu o setor administrativo e a biblioteca da instituição. O fogo queimou um vasto acervo de livros de psiquiatria e praticamente todos os prontuários médicos, reduzindo a cinzas a memória dos pacientes que por lá passaram.

    Quando se fala em saúde mental, ainda acontecem abusos, formas controversas de tratamento e inúmeros casos de internações forçadas, hoje estimuladas por projetos higienistas que se voltam contra moradores de rua e usuários de drogas. Já nas prisões, dos 665 mil detentos no Brasil, 221 mil (34%) esperam julgamento, muitos deles por anos a fio. A população carcerária no Brasil é majoritariamente jovem, pobre, negra, de baixa escolaridade.

    Renato da Silva Moraes Junior é o nome do rapaz que aparece no primeiro parágrafo deste artigo. Ele tem 23 anos e estava entre as 159 pessoas detidas em 7 de abril de 2018 durante uma festa em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, acusadas de envolvimento com a milícia. Renato ficou preso até 26 de abril e só foi solto após ser submetido a uma avaliação psiquiátrica. O subcoordenador de Defesa Criminal da Defensoria Pública do Rio, Ricardo André, já tinha informado que Renato, embora não seja usuário de Caps, fazia acompanhamento em uma Clínica da Família, onde tinha sido diagnosticado com “retardo mental leve”. Durante o período em que permaneceu preso, de acordo com seus pais, foi privado de tomar a medicação receitada por seu médico.

    Embora a luta antimanicomial tenha promovido inúmeros avanços no Brasil, o confinamento continua estruturando nossas formas de pensar, agir e organizar o controle social. Se antes o confinamento era realizado em instituições como o Juquery, hoje o confinamento dos indesejáveis, dos que perturbam a ordem pública, dos que devem ser afastados dos olhares e da convivência, dos improdutivos, é realizado em centenas de presídios superlotados pelo país todo.

     

    Metade da população prisional está confinada por crimes contra o patrimônio e metade destes foram cometidas em ações sem o uso da violência. Um terço dos presos está confinado por envolvimento em comércio de entorpecentes ilícitos, destes, a imensa maioria nunca empunhou uma arma de fogo.

    A pobreza – absoluta ou relativa – é o que leva esses contingentes de jovens – na maioria negros – a tentar a vida em atividades ilegais. E a receita majoritária para lidar com os delitos de circulação da riqueza é o confinamento. Especialmente num momento da história em que são derrotados os projetos políticos que investem em direitos sociais como saúde, educação, cultura, renda. Pobres, pessoas com distúrbios psicológicos e psiquiátricos, deficientes e doentes mentais, ou apenas mentes ousadas, não têm como perspectiva usufruir da assistência pública à saúde mental, ao emprego apoiado, às alternativas de renda, ao desenvolvimento da cultura, à participação social como forma de recriar sentidos para a vida.

     

    No interior dos presídios sucedem-se as denúncias de inúmeras formas de maus-tratos, que nunca são eliminados ou amenizados, nem mesmo com a força de organização e pressão das facções criminais. A realidade das instituições de confinamento em 2018 se assemelha à do Juquery no passado: comida estragada, banho gelado, ausência de lugares para dormir, ausência de instalações sanitárias, doenças comuns como sarna, tuberculose, infecções por piolhos. Pessoas com deficiências e doenças mentais continuam sem medicação ou qualquer forma de assistência. Adolescentes internados em unidades socioeducativas são entupidos de remédios com a finalidade de limitar suas capacidades de ação e resistência, para que fiquem calmos e não deem trabalho. A tortura física está no horizonte de todas as instituições de confinamento, seja por meio de celas de isolamento, do incentivo a rivalidades internas, ou da pura e simples porrada. Como se fazia antes, como se faz agora.

    O mês da luta antimanicomial também deve servir para nos darmos conta do quão arraigadas são as práticas do confinamento com objetivos de controle social. É impressionante como são similares os padrões perversos do confinamento, que antes eram socialmente justificados em nome de livrar a sociedade dos loucos, e hoje continuam sendo praticados em formas muito semelhantes em nome de livrar os homens de bens dos criminosos.

    A história se apaga, se transmuta, mas seus aspectos mais cruéis e dolorosos continuam se repetindo como se tempo nunca tivesse passado, no manicômio ou na prisão.

    Jacqueline Sinhoretto é Socióloga, professora de Sociologia da UFSCar e coordenadora do GEVAC. Autora do Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil. 

    Daniel Navarro Sonim é Jornalista, palestrante e escritor. Autor, junto com Walter Farias, do livro O Capa-Branca – de funcionário a paciente de um dos maiores hospitais psiquiátricos do Brasil.

    ACESSE: A persistência do confinamento .

  • QUEM GANHA COM MAIS POLÍCIA E MAIS PRISÃO?

    Autora: Jacqueline Sinhoretto

    O título do livro Prendendo os nossos, é bastante provocativo. Foi escrito pelo professor de Direito James Forman Jr, um intelectual negro que fez carreira na defensoria pública na cidade de Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos. O argumento central é o apoio dado por liderança políticas, policiais e judiciais negras ao progressivo endurecimento penal e seus efeitos sobre a vida de pessoas negras, clientes do autor na advocacia pública gratuita.

    Acesse aqui.

  • Taxa de negros mortos pela polícia de SP é 3 vezes a de brancos, diz estudo – Via G1

    Policiais envolvidos, entretanto, são, em sua maioria, brancos (79%).Professora da UFSCar fala em ‘racismo institucional’; SSP analisará dados.

    Thiago ReisDo G1, em São Paulo

    26/03/2014 07h58 – Atualizado em 26/03/2014 13h58

    Letalidade policial em SP (Foto: Arte/G1)

    O índice de negros mortos em decorrência de ações policiais a cada 100 mil habitantes em São Paulo é quase três vezes o registrado para a população branca e a taxa de prisões em flagrante de negros é duas vezes e meia a verificada para os brancos. É o que mostra um estudo da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que será divulgado oficialmente no dia 2 de abril.

    Os dados revelam que 61% das vítimas da polícia no estado são negras, 97% são homens e 77% têm de 15 a 29 anos. Já os policiais envolvidos são, em sua maioria, brancos (79%), sendo 96% da Polícia Militar.

    A coordenadora da pesquisa, Jacqueline Sinhoretto, diz que existe hoje um “racismo institucional”. “Não é que o policial como pessoa tenha preconceito. É o modo como o sistema de segurança pública opera, identificando os jovens negros como perigosos e os colocando como alvos de uma política violenta, fatal”, diz.

    O estudo sobre a letalidade policial, feito pelo Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da universidade, levou em conta 734 processos da Ouvidoria, de 2009 a 2011, com 939 vítimas.

    Procurada pelo G1, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo diz que não teve acesso ao teor e à metodologia da pesquisa, “o que a impede de fazer comentários mais precisos sobre as conclusões”. “No entanto, os dados do estudo serão avaliados pela SSP e pelas polícias. O objetivo é definir se os dados apurados podem subsidiar aprimoramentos das políticas públicas de segurança”, informa, em nota.

    Quando os dados de mortes de 2011 de negros (193) e brancos (131) são comparados à população de cada etnia residente em SP, a taxa de negros mortos por 100 mil fica em 1,4, contra 0,5 dos brancos. Segundo os números da pesquisa, a população de negros no estado de São Paulo é de 14,3 milhões e a de brancos, 26,4 milhões.

    “Isso é grave. Só o fato de a polícia ter um grau de letalidade tão alto já é muito problemático para uma democracia. Quando isso ainda contém um viés racial tão claro é porque a gente está diante de uma desigualdade, produzida por uma política de segurança definida”, afirma Jacqueline.

    Para ela, uma das causas da alta letalidade policial é a impunidade. A pesquisa revela que 94% dos inquéritos policias do período foram concluídos sem indiciar nenhum policial. Em 73% deles, a razão apontada pelos delegados foi a de que “não houve crime de homicídio por parte dos policiais”.

    Existe um racismo institucional. Não é que o policial como pessoa tenha preconceito. É o modo como o sistema de segurança pública opera, identificando os jovens negros como perigosos e os colocando como alvos de uma política violenta, fatal”
    Jacqueline Sinhoretto, coordenadora da pesquisa da UFSCar

    Com relação à Corregedoria, 60% dos processos identificaram que não houve transgressão disciplinar na conduta dos policiais. “Eles fazem isso sem realizar uma investigação mais aprofundada. O que a gente viu nos autos é que a conclusão é feita de maneira sumária. É um pressuposto de que a polícia atirou porque a pessoa era criminosa”, diz a coordenadora do estudo.

    “A morte violenta, no entanto, ocorre muito precocemente. Isso indica que outras políticas de prevenção e repressão ao crime não foram nem sequer tentadas com esses cidadãos, isto supondo que eles realmente cometeram crimes, porque se não há apuração, não se pode afirmar se eles foram mesmo mortos porque cometeram delitos”, complementa.

    Jacqueline diz que há atualmente uma “conivência” de todas as esferas com a política violenta exercida em São Paulo.

    Prisões em flagrante
    A pesquisa também fez um recorte das prisões em flagrante por homicídio e roubo realizadas no estado de 2008 a 2012, com base nos dados da Secretaria da Segurança Pública. Os negros foram novamente maioria.

    Quando os dados de prisões de 2012 de negros (3.592) e brancos (2.682) são comparados à população de cada etnia residente em SP, a taxa de negros presos a cada 100 mil fica em 35, ante 14 dos brancos. “Isso mostra que a polícia está fazendo a vigilância e a repressão, violenta ou não, privilegiando claramente os jovens negros, de modo racializado”, afirma.

    ACESSE : Taxa de negros mortos pela polícia de SP é 3 vezes a de brancos, diz estudo .

  • Negros são a maioria entre as vítimas da Polícia, diz pesquisa – Via afroPress

    Da Redação, com informações da Assessoria da UFSCar
    S. Carlos/SP – Negros são maioria entre vítimas de mortes cometidas por policiais, são mais presos em flagrante e mais visados em abordagens. Essas são as conclusões da pesquisa inédita feita por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sobre o racismo na Polícia Militar do Estado de S. Paulo. Os dados obtidos em entrevistas com policiais, observação das abordagens e análise de dados estatísticos mostram que os policiais matam e prendem mais pessoas negras do que brancas.

    De acordo com os números da pesquisa, em S. Paulo, nos anos de 2010 e 2011, entre as vítimas de mortes cometidas por policiais, 58% são negras, ao passo que na população residente do Estado o percentual de negros era de 34%. Para cada grupo de 100 mil habitantes negros, foi morto 1,4, ao passo que, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, foi morto 0,5.

    A pesquisa foi coordenada pela professora Jacqueline Sinhoretto (foto), do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC), do Departamento de Sociologia da UFSCar, e analisou Inquéritos Policiais que tratam de mortes cometidas por policiais e que são acmpanhados pela Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, além de dados obtidos junto à Secretaria de Segurança Pública. Além disso, foram entrevistados oficiais e praças da PM.

    Segundo a coordenadora, estes números deixam evidente a ausência de políticas de segurança pública para a população negra, que culmina nas altas taxas de mortalidade por homicídio neste grupo.

    Desigualdade racial e letalidade policial

    Além da produção da desigualdade racial na letalidade policial, a pesquisa constatou ainda que a vigilância policial é operada de modo racializado. Em São Paulo, a taxa de flagrantes de negros é mais que o dobro da verificada para brancos. Segundo Sinhoretto, estes dados expressam que a vigilância policial privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitos criminais, flagrando em maior intensidade as suas condutas ilegais, ao passo que os brancos gozam de menor vigilância da polícia para suas atividades criminais.

    Os resultados do trabalho serão apresentados em evento da Escola da Defensoria Pública do Estado de S. Paulo, marcado para o dia 02 de abril, às 09h30 no Auditório da Rua Boa Vista, 200, na região central da capital.

    ACESSE : Negros são a maioria entre as vítimas da Polícia, diz pesquisa .

  • Pesquisa da UFSCar aponta desigualdade racial na ação da PM em São Paulo – Via Geledes

    Pesquisa da UFSCar aponta desigualdade racial na ação da PM em São Paulo

    Data: 

    Pesquisadores constataram que negros são maioria entre vítimas de mortes cometidas por policias, são mais presos em flagrante e mais visados em abordagens.
     
    Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos realizaram uma pesquisa inédita sobre o racismo na ação da Polícia Militar paulista. Os dados obtidos em entrevistas com policiais, observação das abordagens e análise de dados estatísticos mostram que os policiais matam e prendem mais pessoas negras do que brancas.
    Coordenada pela Profa. Dra. Jacqueline Sinhoretto, do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) do Departamento de Sociologia da UFSCar, a pesquisa analisou Inquéritos Policiais que versam sobre mortes cometidas por policias e que são acompanhados pela Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo e ainda dados obtidos junto à Secretaria de Segurança Pública. Além disso, foram entrevistados oficiais e praças da PM.
    A pesquisa descobriu que em São Paulo, nos anos de 2010 e 2011, entre as vítimas de mortes cometidas por policiais, 58% são negras, ao passo que na população residente do estado o percentual de negros é de 34%. Para cada grupo de 100 mil habitantes negros, foi morto 1,4, ao passo que, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, foi morto 0,5. Segundo a coordenadora da pesquisa, estes números deixam evidente a ausência de políticas de segurança pública para a população negra, que culmina nas altas taxas de mortalidade por homicídio neste grupo.
    Além da produção da desigualdade racial na letalidade policial, a pesquisa constatou ainda que a vigilância policial é operada de modo racializado. Em São Paulo, a taxa de flagrantes de negros é mais que o dobro da verificada para brancos. Também segundo Sinhoretto, estes dados expressam que a vigilância policial privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitos criminais, flagrando em maior intensidade as suas condutas ilegais, ao passo que os brancos gozam de menor vigilância da polícia para suas atividades criminais.
    A pesquisa será apresentada em evento da Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, no dia 02 de abril, às 9h30, no Auditório da Rua Boa Vista, 200, na região central da capital.
  • As the World Cup action begins, Brazil’s hard-fought democracy is under threat – Via The Guardian

    Brazil may have shed its dictatorship 25 years ago, but human rights abuses and a military police remain .

    The Guardian , 2014

     

    By the middle of July, the Brazilian government will have spent more than $12bn on hosting the World Cup, but the costs that this mega-event could bear for the country’s identity – an emerging power with a robust democracy – might be far higher. Basic democratic rights such as freedom of expression, association and assembly that have been hard fought for in the more than 30 years since the dictatorship, are now at risk.

    Today, when thousands of tourists pack into the Itaquera stadium in São Paulo for the opening game of the World Cup, it will have been nearly a year since mass demonstrations erupted across the country. The government has not only failed to provide an adequate response, it has also actively sought to repress them.

    ACESSE: As the World Cup action begins, Brazil’s hard-fought democracy is under threat.

  • Pesquisadoras da UFSCAR apresentam estudo sobre desigualdade racial e segurança pública

    Levantamento da Universidade Federal de São Carlos foi discutido em encontro com a equipe da SMDHC e com o Comitê Juventude Viva .

     

    A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) promoveu na sexta-feira, dia 6, dois encontros para a apresentação da pesquisa ‘Desigualdade racial e segurança pública em São Paulo’, desenvolvida pelo Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). O primeiro foi voltado à equipe da Secretaria e o segundo, ao Comitê Juventude Viva.

    O trabalho das pesquisadoras Giane Silvestre e Maria Carolina Schittler, coordenado pela professora Jacqueline Sinhoretto, reforça a importância da implementação do Plano Juventude Viva em São Paulo, ao mostrar que homens negros, sobretudo jovens, são as principais vítimas da violência policial no estado de São Paulo.

    Lançado na Cidade no ano passado, o Juventude Viva busca reduzir a vulnerabilidade da juventude negra e de periferia e criar estratégias de prevenção à violência. Iniciativa do governo federal, o Plano tem a sua implementação em São Paulo – presente no Programa de Metas da Prefeitura – coordenada pela SMDHC, por meio da Coordenação de Políticas para Juventude, e pela Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial (SMPIR).

    A pesquisa da UFSCAR mostra dados da atividade policial com o viés de cor e raça. Segundo o levantamento, dos 939 casos de ações policiais que acabaram com mortos no estado analisados entre 2009 e 2011, 61% das vítimas eram negras, sobretudo homens jovens.

    “A vigilância policial é operada de modo racializado, privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitos criminais. E esse olhar de suspeição está presente também no mercado de trabalho, na escola e em vários outros lugares”, disse a professora Jacqueline.

    Outro dado apresentado pelo estudo foi o de que, entre os casos de mortes praticadas por policiais, 94% são concluídos sem apuração ou indiciamento dos responsáveis.

     

     

     

    ACESSE : Veja a pesquisa na íntegra

    ACESSE : Pesquisadoras da UFSCAR apresentam estudo sobre desigualdade racial e segurança pública .

     

     

  • Jacqueline Sinhoretto-SP precisa explicar os erros de sua política de segurança pública

    SP precisa explicar os erros de sua política de segurança pública, por Jacqueline SinhorettO

    Os números alarmantes da letalidade policial precisam ser melhor estudados por relatórios independentes e por pesquisadores. Mas o mais importante é que eles sejam explicados pela Polícia Militar e pela Secretaria de Segurança Pública, pois eles devem ao público transparência e compromisso. É preciso que o Comando da PM, a SSP e o Governo do Estado de São Paulo expliquem porque aumentaram os confrontos com mortos nas atuações policiais. E expliquem o que está dando errado nas operações policiais para que elas estejam fugindo tanto ao controle e produzindo resultados indesejados com tanta frequência.

    Não obstante, as declarações do governador e o próprio discurso da PM indicam que o crescimento do número de mortos está ligado a uma política de segurança que aposta no confronto violento, ao invés de apostar em investigação e inteligência para realizar o controle do crime. Entrevistas concedidas por policiais civis aos pesquisadores da UFSCar têm abordado a sensação de desprestígio que a polícia investigativa sente diante da gestão Alckmin. Alguns usaram a expressão “sucateamento da Polícia Civil”. Eles percebem um privilégio à PM para atuar em procedimentos sigilosos promovidos em parceria com setores do Ministério Público, atuando num modelo de investigação pouco democrático e com objetivos não muito esclarecidos.

    A outra face desta política de suposta repressão ao crime a qualquer custo é a morte desenfreada de jovens negros. A justificativa oferecida pelos policiais para estas mortes é o combate ao crime e à agressão sofrida pelos policiais. Mas é muito difícil para nós acreditar que as polícias de São Paulo estejam tão despreparadas para realizar o controle do crime a ponto de realmente estarem trocando tiros a esmo nas ruas. Se estão fazendo isto, estão errando duplamente. O crime organizado é altamente hierarquizado, com estruturas organizacionais e financeiras bastante sofisticadas e não é trocando tiro na rua que se irá controlar suas atividades com eficiência. O outro erro é a violência que esta forma de combate produz para a sociedade como um todo, incluindo jovens com menos 20 anos, incluindo os policiais e suas famílias, que ficam vulneráveis a ações de revide.

    Esta política de confronto está amparada numa concepção de segurança pública enviesada e antidemocrática, pois supõe que seja legítimo matar uma parcela da população com a suposta justificativa de preservar a segurança de outra parcela. Além de ser inaceitável esta concepção numa sociedade democrática, ela é ineficiente para este objetivo declarado, pois o crescimento do número de confrontos com a polícia não reduziu o número de roubos praticados e não enfraqueceu as estruturas financeiras do tráfico de drogas. Ou seja, não é verdade que quando a polícia mata mais pessoas a sociedade fica mais segura.

    O outro efeito nefasto da alarmante letalidade policial é a destruição da legitimidade da ação da polícia junto a grandes parcelas da população. Os jovens da periferia desconfiam da ação da polícia e sentem medo quando a polícia está presente. A presença da polícia é fator de insegurança para os jovens negros da periferia, contrariando todas as nossas crenças de que a presença da polícia transmita a sensação de segurança. O descrédito na polícia é muito negativo para a ordem democrática, pois reforça a legitimidade de soluções fora da lei, incluindo a administração de conflitos por agentes vinculados ao crime e a violência cometida com as próprias mãos. Um dos reflexos desta descrença é hoje o apoio, legítimo, dos jovens à extinção da polícia militar e a adesão à bandeira da desmilitarização.

    Jacqueline Sinhoretto, 40, professora do Departamento de Sociologia da UFSCar, líder do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos-GEVAC

  • Jacqueline Sinhoretto – Quem enfrentará Telhada nas urnas?

    Quem enfrentará Telhada nas urnas?

    Telhada ocupa um espaço político que não é novo .
    Jacqueline Sinhoretto ,14  Mai 2015 – 14:42.
    A indicação do Coronel Telhada à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi notícia de jornal e objeto de comentários insatisfeitos nas redes sociais. Isto porque sua trajetória como oficial da Polícia Militar foi marcada por envolvimento em ao menos 36 mortes em decorrência de ação policial. Telhada é visto por integrantes da corporação como um herói por ter liderado o batalhão mais letal, a ROTA, que sob o seu comando recuperou prestígio e desenvolveu técnicas eficazes para driblar constrangimentos institucionais ao poder letal da PM.

    Segundo deputado mais votado do estado, é autor de livros e de perfil do Facebook com milhares de seguidores, que aplaudem suas posições a favor do extermínio dos bandidos, da redução da maioridade penal, críticas dos defensores dos direitos humanos e de todas as propostas de reforma das polícias. É um legítimo representante da “bancada da bala”, que vem sendo preparado por seu partido – o PSDB – para ser um dos políticos mais importantes da legenda em São Paulo. Suas candidaturas são muito bem financiadas e ele dispõe – segundo interlocutores do próprio meio tucano – de assessoria política e de comunicação, além de preparação para disputar não apenas cargos legislativos. Alguns apostam que será candidato majoritário pela legenda tucana em pouco tempo.

    Telhada ocupa um espaço político que não é novo. O que ele representa já foi representado por Erasmo Dias, Maluf, Conte Lopes, Fleury Filho. E por secretários de Alckmin como Saulo de Abreu, Lourival Gomes, Ferreira Pinto.

    A novidade talvez seja a “bancada da bala” passar a disputar ativamente as cadeiras da Comissão de Direitos Humanos, num momento em que aumenta a pressão por reformas no campo da segurança, nas polícias, por controle da letalidade policial. Não que as reformas estejam perto de acontecer, mas a sociedade civil está hoje mais organizada por estas pautas, que incluem a desmilitarização e a extinção da PM. Portanto, é compreensível o movimento de Telhada.

    A pergunta é o que estamos fazendo nós, simpatizantes das pautas de reformas, eleitores de candidatos de esquerda, defensores de direitos humanos, para fazer frente a políticos com as pautas de Telhada no estado de São Paulo? Os candidatos de esquerda em eleições a governador não têm tido a menor chance. Desde a morte de Mário Covas, qualquer perspectiva de reforma da segurança pública desapareceu do debate eleitoral e das ações do governo. O prende-e-arrebenta prospera sendo muito pouco incomodado pela oposição. As pesquisas qualitativas apontam predileção do eleitor pelas pautas da violência do Estado (será isso mesmo?) e abalam a convicção dos comitês de campanha dos partidos, que estão deixando vazio na formulação do discurso crítico consequente para a segurança pública.

    A campanha de Alexandre Padilha mobilizou setores dos movimentos sociais e da universidade para disputar a construção de um programa de governo de segurança com propostas de reformas, mudanças nas concepções de policiamento, propostas de redução de homicídios, em especial de jovens, sobretudo de negros, mecanismos eficazes de controle da letalidade, reversão do mega encarceramento. O programa continha propostas capazes de produzir impacto no controle do crime e na democratização do direito à segurança pelos territórios e pelos segmentos populacionais. Sua construção foi resultado de influências plurais, da participação de diversos grupos de interesse e segmentos de luta. Mas os formuladores do programa não podiam se reconhecer na maior parte do discurso do candidato na televisão. Em espaços de convertidos, Padilha tinha excelente discurso de reformas para a segurança. Na TV prevalecia a força do marketing eleitoral que mandava repetir o programa duro e punitivo do adversário.

    Perdeu-se a eleição e a oportunidade de fazer um debate verdadeiro e profundo sobre segurança pública. Ou antes, o debate ficou restrito aos espaços onde os profissionais do marketing não conseguiram limitá-lo.

    Se Telhada está sendo preparado para suceder Alckmin, quem está sendo preparado para lhe fazer frente, para competir com um programa de ação alternativo? Como foi pensado o investimento dos recursos de campanha a deputados que representam o discurso de reformas na segurança pública? PT e PSOL terão 3 deputados na Comissão de Direitos Humanos, PCdoB nenhum. É pouco. Raul Marcelo, Beth Sahão e Marcia Lia precisarão de suporte partidário para representar os movimentos sociais e defender ações e projetos de lei, além do apoio ativo dos movimentos. E será pouco.

    Já passou da hora dos partidos à esquerda – penso concretamente em PT, PSOL e PCdoB por contarem com excelentes quadros na temática – compreenderem ativamente que, se em Brasília disputam contra os críticos do bolsa-família e dos investimentos sociais do Estado, aqui na pátria bandeirante seus adversários são admiradores da ROTA que se elegem ao repetir que “bandido bom é bandido morto”. É preciso assumir isto como fato e se preparar para enfrentá-lo. É preciso estudar mais, propor melhor, compreender mais profundamente o tema da segurança como política. É preciso preparar melhor os candidatos e os comitês de campanha para constituir e fortalecer propostas de ação e discursos para o eleitor que não vota em Telhada e que não quer entregar a política nas mãos da polícia. É preciso investir em candidatos e em mandatos que tenham perfil para fazer oposição ao discurso de violência.

    Enquanto isto, seguimos contando os mortos da democracia paulista às centenas de milhares, demonstrando que eles são jovens, negros, das periferias, o mesmo público que os anos de governo petista incluíram no mercado de consumo, mas não incluíram no direito à vida e à liberdade.

    *Jacqueline Sinhoretto é professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

  • Jacqueline Sinhoretto: “Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio” – Via Época

    Jacqueline Sinhoretto: “Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio”

    Para socióloga, não há investimento suficiente para proteger o jovem – principal vítima de armas de fogo no Brasil

    IGOR UTSUMI ,15/05/2015 – 18h22 – Atualizado 15/05/2015 19h21

    Brasileiro, homem, 19 anos. Esse é o perfil da principal vítima de armas de fogo no Brasil. A cada 100 mil jovens desta idade, 62,9 morrem por causa de um tiro. Eles estão entre as 42.416 pessoas que morreram baleadas no Brasil em 2012 – que equivale a 116 mortos por dia –, segundo o Mapa da Violência 2015. Deste total, 94,5% foram mortes por homicídio. O estudo coordenado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz foi divulgado nesta semana. (Confira os números na reportagem do G1)

    Para Jacqueline Sinhoretto, socióloga e coordenadora do Grupo de Estudos sobre a Violência e Administração de Conflitos (GEVAC) da UFSCar, o agravamento do problema está ligado às atuais políticas de segurança pública. Segundo ela, não há investimento suficiente para proteger os jovens. Em vez disso, há uma percepção geral de que crimes devem ser enfrentados com violência. Em entrevista a ÉPOCA, Jacqueline afirma que isso é problemático: “Não gera segurança, mas extermínio”.

    ÉPOCA – Quais suas principais impressões da pesquisa?
    Jacqueline Sinhoretto –
     Acho importante destacar a quantidade de homicídios, que por si só é um número absoluto altíssimo. Mas é preciso observar que essa questão não atinge a todos igualmente. Pelo contrário, é muito bem focalizada: os jovens morrem mais, e entre eles, os jovens negros (foram 142% mais negros que brancos mortos por armas de fogo). Não é algo que declina ao longo dos anos, não é permanência de traço do passado. Isso é vivido no presente, está relacionado à ausência ou fraqueza de políticas públicas para proteção da juventude, especialmente a negra.

    ÉPOCA – Mas a piora nos índices de homicídio não está ligada apenas a esse grupo. Também acontece no quadro geral. Por quê?
    Jacqueline – 
    Está claro que há uma ligação direta com as armas de fogo. O Mapa da Violência mostra que os números provavelmente seriam ainda piores sem o Estatuto do Desarmamento. E também é preciso fazer uma leitura conjunta com o alto índice de letalidade policial. As taxas de violência são muito grandes, mas o número de pessoas que morrem pela mão do próprio Estado como parte das políticas de segurança pública é grave.

    ÉPOCA – Quão grande é o impacto da questão policial?
    Jacqueline –
     Quando pesquisadores de outros países olham os índices brasileiros, acham até que houve imprecisão na pesquisa, que alguém errou ao digitar os dados. Em 2014, na França, a polícia matou seis pessoas no ano inteiro. Aqui é o que se mata em um dia. Os homicídios por policiais militares estão relacionados ao modelo de policiamento adotado na maior parte do Brasil: o criminoso não é visto como alguém que cometeu um delito, mas como um inimigo a ser destruído. Isso tudo gera impressão de que crime precisa ser combatido com mais violência. E essa visão produz mais mortes.

    ÉPOCA – O Mapa da Violência mostra que jovens negros são as maiores vítimas dos homicídios por mortes de fogo. Eles têm 2,5 mais chances de morrer do que jovens brancos. Por quê?
    Jacqueline –
     Justamente porque o modelo de policiamento visa esse grupo. Há uma crença de que o criminoso tem tipo físico específico e cor de pele determinada. O jovem negro tem estigma de criminoso, e pelas políticas de segurança pública atuais, soluções violentas são boas soluções. Isso é problemático porque não gera segurança, mas extermínio. Os jovens negros correm maior risco de morte, mas não existe investimento suficiente em prevenção à violência contra esta população.

    ÉPOCA – Há certa discrepância entre os índices de cada Estado. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, têm diminuído as mortes por armas de fogo, enquanto a situação tem piorado em outras regiões. Por que essa diferença? Aspectos socioeconômicos influenciam?
    Jacqueline – 
    É difícil relacionar só com aspectos socioeconômicos. Comparando os números de 2012 com os de 2002, Roraima foi o terceiro Estado que mais reduziu as taxas de óbito por armas de fogo. Dá para dizer que Roraima é um Estado rico? Não. Minas Gerais teve uma piora e não é um Estado pobre. É mais difícil explicar como esses estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, diminuíram as mortes porque não há uma política clara de redução de homicídios como em Pernambuco, por exemplo. Só há política de aumentar encarceramento. Mas o Mapa do Encarceramento, que vai ser lançado em breve, mostra que prender mais não significa evitar mais homicídios.

    ÉPOCA – E como reverter esse quadro? Que soluções devem ser tomadas?
    Jacqueline – 
    É extremamente importante mudar o modelo de policiamento e as políticas de segurança pública, como já comentei. Medidas que reduzem o número de roubos de celular não são as mesmas que reduzem homicídios. É possível ver várias iniciativas que funcionaram — talvez não do modo exato como gostaríamos, mas com resultados importantes — como o Pacto pela Vida, em Pernambuco, e o Fica Vivo, que durante um tempo funcionou em Minas Gerais, planos que têm metas bem amarradas. Não é que não se sabe o que precisa ser feito; se sabe, mas as políticas de segurança pública não colocam em prática.

    Jovens morrem mais
    Número de jovens, de 15 a 29 anos, assassinados por armas de fogo no Brasil 
    2002 20.567
    2003 21.755
    2004 20.827
    2005 20.336
    2006 20.939
    2007 20.546
    2008 21.475
    2009 21.912
    2010 21.843
    2011 21.594
    2012 23.867

    Fonte: Mapa da Violência 2015

    ACESSE:  Soluções violentas não geram segurança, mas extermínio .

  • Via painel acadêmico -Construir prisões não é resposta adequada para questão penitenciária no Brasil, diz especialista

    Construir prisões não é resposta adequada para questão penitenciária no Brasil, diz especialista

    Igor Truz | São Paulo – 05/01/2017 – 18h58
    Autora do livro ‘Dias de Visita’, que analisa a criação de presídios no interior paulista, Giane Silvestre, pesquisadora do Gevac-UFSCar, afirma que construção de cadeias impulsiona encarceramento

    Um novo presídio para cada estado brasileiro. Esta foi a medida anunciada pelo presidente Michel Temer nesta quinta-feira (5/1) como resposta ao Massacre de Manaus. Três dias após a rebelião no Compaj (Complexo Prisional Anísio Jobim), que deixou ao menos 56 presos mortos, Temer prometeu a mobilização de R$ 800 milhões para a construção de novas penitenciárias.

    A solução presidencial, no entanto, passa longe de resolver a questão penitenciária no Brasil. É o que aponta a cientista social Giane Silvestre, pesquisadora do Gevac (Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos) da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e associada ao FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

    “Definitivamente, a construção de unidades prisionais não é uma resposta adequada para a questão penitenciária no Brasil, pois estamos prendendo cada vez mais. O crescimento físico do sistema prisional impulsiona o crescimento do encarceramento, e o maior exemplo disso é o Estado de São Paulo, que nos últimos 20 anos construiu mais de 120 prisões e teve sua taxa de encarceramento aumentada em 200%”, explica Giane.

    A construção de presídios e seus desdobramentos são o tema do livro Dias de Visita (Alameda Editorial), onde a pesquisadora investigou o impacto da construção de penitenciárias em cidades do interior de São Paulo.

    “Hoje, São Paulo tem uma das maiores taxas de encarceramento do país (503 presos por 100 mil habitantes) e o maior sistema prisional com 166 unidades. Ainda que a maior parte das prisões brasileiras estejam superlotadas, a construção de mais unidades sem que haja, simultaneamente, a implementação de uma política descarcerizante não resolverá a questão”, diz a pesquisadora.

    Em entrevista coletiva concedida após as declarações de Temer, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou que o governo pretende racionalizar o sistema penitenciário brasileiro e defendeu o fortalecimento de medidas alternativas ao encarceramento para autores de crimes sem gravidade ou violência. Para Giane, esta é uma das políticas que pode melhorar a situação do encarceramento no Brasil .

    A pesquisadora lembra que esta já era uma tendência no governo da presidente Dilma Rousseff . No início do ano passado, o Depen (Departamento Penitenciário Nacional) instituiu a Política Nacional de Alternativas Penais, com o objetivo de traçar estratégias para ampliar a aplicação das penas alternativas. De acordo com Giane, no entanto, a iniciativa perdeu força após o impeachment de Dilma.

    “É preciso que o governo federal tenha uma atuação mais incisiva, promovendo integração em nível nacional, com a participação dos Estados, no sentido de promover a melhoria das condições de aprisionamento ao evitar prisões desnecessárias, ao invés de construir mais prisões para aumentar o número de pessoas encarceradas e, consequentemente, o contingente das organizações criminais”, defende Giane.

    Confira abaixo a entrevista completa com a especialista:

    Painel Acadêmico – Como você avalia a declaração de Michel Temer de que o massacre ocorrido em Manaus foi um “acidente pavoroso”?

    Giane Silvestre: classificar o episódio ocorrido em Manaus como um “acidente” é, no mínimo, um grande erro – ainda mais quando se trata da principal autoridade do poder executivo nacional. O massacre de Manaus é resultado de políticas de segurança ineficazes, má gestão do sistema prisional, descaso com a população carcerária e encarceramento excessivo, dentre outras questões. Diversas entidades (como Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura e a Pastoral Carcerária) já haviam alertado sobre a situação precária das prisões do Amazonas, incluindo a Complexo Penitenciário Anísio Jobim (COMPAJ) onde ocorreu o massacre. O risco iminente de rebeliões e outras situações que pudessem colocar em risco a vida das pessoas detidas nestes espaços foi relatado por tais entidades, portanto, não se pode alegar desconhecimento sobre as causas desta tragédia. É lamentável que Michel Temer classifique um massacre destas proporções como um acidente, deixando transparecer a ausência de responsabilidade do Estado brasileiro sobre o fato.

    Painel Acadêmico – No livro Dias de Visita, você aborda o impacto da construção de presídios em cidades do interior, tanto para os moradores locais, quanto para os familiares dos encarcerados. Neste sentido, como você avalia o anúncio de Temer da construção de um novo presídio para cada estado brasileiro? É uma resposta adequada para a questão penitenciária no Brasil? Quais seriam os efeitos?

    Giane Silvestre: definitivamente, a construção de unidades prisionais não é uma resposta adequada para a questão penitenciária no Brasil, pois estamos prendendo cada vez mais. O crescimento físico do sistema prisional impulsiona o crescimento do encarceramento, e o maior exemplo disso é o Estado de São Paulo, que nos últimos 20 anos construiu mais de 120 prisões e teve sua taxa de encarceramento aumentada em 200%. Hoje, São Paulo tem uma das maiores taxas de encarceramento do país (503 presos por 100 mil habitantes) e o maior sistema prisional com 166 unidades. Ainda que a maior parte das prisões brasileiras estejam superlotadas, a construção de mais unidades sem que haja, simultaneamente, a implementação de uma política descarcerizante não resolverá a questão.

    Painel Acadêmico – Isolar criminosos de “alta periculosidade” em presídios de segurança máxima pode ter alguma efetividade?

    Giane Silvestre: não há evidências de que o isolamento seja uma medida efetiva para o controle da criminalidade. Em São Paulo, por exemplo, desde o início dos anos 2000 foram criadas unidades prisionais em que operam o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que impõe uma rotina de isolamento aos presos. Algumas lideranças do PCC foram transferidas para estas unidades desde então, no entanto, não há indícios de que as atividades criminais do grupo tenham se enfraquecido diante desta medida.

    Painel Acadêmico  – Entre as medidas anunciadas pela equipe de Temer, chamou a atenção o fato de Alexandre de Moraes, ministro da Justiça, defender a diferenciação de penas para crimes com e sem violência ou grave ameaça. O ministro defendeu a adoção de penas alternativas para os crimes menos graves. É uma mudança que pode de fato fazer a diferença?

    Giane Silvestre: a adoção de penas alternativas à prisão é uma das políticas que pode melhorar a situação do encarceramento no Brasil. Crimes de baixa gravidade e sem violência não deveriam ser punidos com a pena de prisão, assim como o tráfico de pequenas quantidades. Sabemos que boa parte das prisões brasileiras são controladas por grupos que fazem o controle da criminalidade, inclusive do lado de fora das prisões. Colocar nestas prisões pessoas primárias ou acusadas de crimes de baixa ofensividade é fortalecer o crescimento destes grupos. Além disso, é preciso lembrar que 36% da população prisional brasileira é formada por presos provisórios, ou seja, por pessoas que ainda não tiveram sua culpa comprovada por parte da justiça, por isso, a celeridade no processamento destes casos também é uma medida que se faz urgente no cenário brasileiro.

    Painel Acadêmico – O que é preciso para a diferenciação de penas dos crimes mais e menos graves? Qual o papel dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo nesta mudança? 

    Giane Silvestre: Em tese, esta diferenciação já consta na legislação e na jurisprudência. O problema é que demoramos muito para começarmos a implementar, de fato, penas e medidas alternativas ao cárcere. A população prisional cresce de forma acelerada desde a metade da década de 1990, mas as iniciativas que fortalecem as penas alternativas ainda são incipientes. Falta também uma articulação efetiva entre os três poderes para a implementação de políticas de segurança e justiça que não vislumbrem somente o encarceramento como medida punitiva e algumas iniciativas são ameaçadas por interesses corporativos das diferentes instituições que compõem o sistema de justiça e segurança. Mudanças legislativas de caráter descarcerizante como a Lei 12.403/2011 – que possibilita ao juiz a decretação de diversas medidas cautelares diferentes da prisão – e a iniciativa do poder judiciário de implementar as Audiências de Custódia em todo país são alguns exemplos, ainda muito recentes, de articulação entre os três poderes e que podem fazer a diferença no curso do encarceramento excessivo.

    Painel Acadêmico – Qual a responsabilidade dos últimos presidentes sobre a atual situação do sistema penitenciário brasileiro? 

    Giane Silvestre: Embora a execução da pena e o processamento criminal fiquem a cargo dos estados brasileiros (com exceção dos crimes federais), a União, por meio do Ministério da Justiça e de seus órgãos como o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) e a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) podem promover (e devem) promover políticas na área de justiça e segurança conjuntamente em nível nacional. No início do ano passado, por exemplo, ainda no governo da Presidenta Dilma, o DEPEN instituiu uma Política Nacional de Alternativas Penais, com o objetivo de orientar estratégias para ampliar a aplicação das alternativas penais no Brasil. No entanto, após o impeachment pouco foi feito para dar efetividade à política. Por isso, é preciso que o governo federal tenha uma atuação mais incisiva, promovendo integração em nível nacional, com a participação dos Estados, no sentido de promover a melhoria das condições de aprisionamento ao evitar prisões desnecessárias, ao invés de construir mais prisões para aumentar o número de pessoas encarceradas e, consequentemente, o contingente das organizações criminais.

     

     

    ACESSE: Construir prisões não é resposta adequada para questão penitenciária no Brasil, diz especialista

  • Jacqueline Sinhoretto: “País negligencia o crime organizado e combate o inimigo errado”-Entrevista ao site de notícias Brasil de Fato

    País negligencia o crime organizado e combate o inimigo errado, afirma pesquisadora :Não se pode combater organizações e fluxos ilegais sem mexer em articulações políticas e econômicas

    Luciano Velleda

    Rede Brasil Atual,10 de Janeiro de 2017 às 10:20

     

    Nos últimos dias diversos especialistas explicaram que as matanças ocorridas nos presídios em Manaus e Boa Vista não só não foram um “acidente”, como definiu o presidente Michel Temer, como eram previsíveis desde o anúncio da ruptura, em outubro de 2016, da relação entre Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

    Para a pesquisadora Jacqueline Sinhoretto, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e coordenadora do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da instituição, as 99 mortes de presos demonstram que o sistema penal do Brasil luta contra o inimigo errado. Organizadora do Mapa do Encarceramento, lançado em 2015, Jacqueline avalia que todo o empenho da segurança pública do país está voltado para crimes de menor importância, enquanto a verdadeira estrutura do crime organizado não é combatida.

    “O tipo de controle que se faz no Brasil de organizações criminais e dos fluxos dos mercados ilegais tem pouca efetividade. Não tem como combater organizações criminais sem mexer com as articulações políticas e econômicas que elas têm. E é exatamente isso que não se faz no Brasil, onde queremos enfrentar o narcotráfico com o encarceramento de pequenos traficantes”, afirma a pesquisadora.

    Nessa entrevista, ela destaca que os programas de metas e de bonificações policiais, em vigor em vários estados do país, colaboram para o caos do sistema carcerário. “O sucesso da atividade policial é medido pelo número de prisões e de apreensões realizadas. Vemos claramente que essas prisões ocorrem numa magnitude que está relacionada a essa ideia de bonificar policiais pelo número de prisões e flagrantes feitos.”

    O problema, explica, é que o foco dessas prisões está no tráfico de drogas e crimes contra o patrimônio, enquanto outros delitos mais graves não são enfrentados. “Homicídio é prioridade, feminicídio é prioridade, crimes graves que envolvem ameaças à vida, como estupro e sequestro, crimes que envolvem violência física devem ser as prioridades.”

    Para ela, não há dúvida: o Brasil enfrenta de modo equivocado o crime. “Há pouca eficácia no combate ao crime em dimensão macro, que são realmente as redes criminais, como elas lavam dinheiro, como se organizam, quem são as lideranças principais e como ela corrompe o sistema. Se investe pouco nisso que é a sustentação da economia criminal.”

    O que significou o rompimento entre o PCC e o CV?

    Quando houve o rompimento, ficou bem claro que iria mudar a lógica de convivência das ações criminais. É uma disputa de hegemonia, de poder e de mercado dentro das penitenciárias, mas não só. É possível, como tem acontecido em algumas capitais e outras cidades médias, toda uma reorganização desses fluxos e de uma economia política do crime. Depois que houve a explicitação de que acabou o acordo entre PCC e CV, ficou o alerta de que havia a possibilidade de conflitos violentos dentro das cadeias, onde a presença é importante, mas também transbordando. O crescimento de homicídios em Natal, em 2016, já responde a essa tensão de grupos ligados de alguma forma ao CV ou ao PCC. Cada localidade tem uma combinação própria, com quadrilhas locais que se articulam nesses mercados ilegais e que podem ou não gerar violência.

    Diante desses avisos, o que poderia ou deveria ter sido feito?

    É muito difícil falar agora, é uma questão complexa que emerge de lógicas complexas. Todos os países que enfrentaram problemas com organizações criminais tiveram muita dificuldade. O tipo de controle que se faz no Brasil de organizações criminais e dos fluxos dos mercados ilegais tem pouca efetividade. Primeiro porque existem agentes políticos e estatais que estão totalmente envolvidos com a gestão dos mercados ilegais. Nós vemos a ponta do iceberg explodir nas posições mais frágeis, nas posições hierárquicas mais vulneráveis dessa cadeia econômica. Essas matanças são as franjas de uma economia criminal e uma disputa de poder. Não tem como combater organizações criminais sem mexer com todas as articulações políticas e econômicas que elas têm. E é exatamente isso que não se faz no Brasil, onde queremos enfrentar o narcotráfico com o encarceramento de pequenos traficantes, o que acaba não resolvendo nosso problema e ainda aumentando o escopo dessas organizações que têm na cadeia uma base de recrutamento de mão-de-obra.

    De que forma o déficit de vagas nos presídios colabora para essa situação de elevada criminalidade?

    Esse problema do déficit é estranho. Não é que tem déficit porque faltam vagam. O estado de São Paulo tem déficit ao mesmo tempo em que investiu como nunca na construção de presídios, chegando a ter 163 unidades prisionais. Minas Gerais também construiu muita cadeia num curto espaço de tempo e o número de presos cresceu seis vezes em dez anos. Esses estados fizeram investimento maciço em construções de presídios, contratação de mão de obra especializada, criação de carreira específica de agentes penitenciários. São Paulo e Minas Gerais são os dois estados que mais avançaram nessa questão e mesmo assim têm déficit.

    Por que se prende muito?

    Porque se prende sem uma política criminal responsável, se prende gente que não cometeu crime violento, mas isso não depende só da cabeça do juiz, depende da legislação também. Há programas de metas de prisões em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco. O sucesso da atividade policial é medido pelo número de prisões e de apreensões que são realizadas ou de casos solucionados. Quando se realiza uma prisão em flagrante, toda a burocracia que existe numa investigação, na prisão em flagrante fica simplificada. Então existe muita denúncia de flagrante forjado. As próprias audiências de custódia foram criadas pelo reconhecimento de que há muito preso provisório e que muitos detidos em flagrante não deveriam aguardar o julgamento preso ou, se chegarem a ser condenados, não vão receber pena de prisão. Então vemos claramente que essas prisões são realizadas numa magnitude que está relacionada a essa ideia de bonificar policiais pelo número de prisões e flagrantes realizados. E esses são os estados que mais aumentaram a população carcerária.

    Dados do Mapa do Encarceramento mostram que 18,7% dos presos são condenados com penas de até quatro anos de reclusão e, por isso, podiam estar cumprindo penas alternativas, mas não estão.

    É uma população que realmente não devia estar presa e é justamente a população visada pela audiência de custódia, que é para não manter encarcerado uma pessoa que quando julgada não receberá uma pena privativa. Fala-se muito em superlotação… Faltam vagas? Não sei se precisa construir mais presídios. O que é necessário, em primeiro lugar, é evitar que as pessoas que não precisem cumprir pena em regime fechado estejam lá dentro. As audiências de custódia são exatamente para mexer neste quadro, só que elas não estão implantadas em todos os lugares e também não temos estudo para avaliar como as audiências estão indo. Há um estudo, do qual faço parte, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para avaliar como as audiências de custódia estão funcionando. A pesquisa está sendo feita em Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, João Pessoa, Distrito Federal e Goiânia.

    Nas medidas anunciadas semana passada para enfrentar a crise, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, enfatizou o trabalho da Defensoria Pública para aliviar os presos provisórios. É esse o caminho?

    O trabalho da Defensoria Pública poderia não ser tão superdimensionado se não tivéssemos uma polícia baseada em prisão em flagrante, com metas de prisão, e também com possíveis mudanças legislativas. Por que não uma proposta legislativa de que crimes cometidos sem violência recebam penas alternativas? Isto seria uma medida muito mais efetiva. Caso contrário, sobrecarrega a Defensoria, as prisões e o Ministério Público também. Não é só a Defensoria que precisa fazer seu trabalho. Para ela atuar, o Ministério Público tem de estudar a acusação, fazer as provas e o juiz julgar. Agora, é público e notório que as condições de trabalho da Defensoria Pública não são compatíveis com a estrutura e recursos do Ministério Público e do Judiciário, nem em salários e nem em termos de quantidade de pessoal.

    A Defensoria Pública é uma ponta frágil do sistema?

    É preciso um trabalho de articulação entre todas as instituições, e não de fragmentação. É um trabalho que vai desde a polícia civil e militar, que tem de ter prioridade e critério. Não faz sentido prender traficantes que muitas vezes são usuários, com pequeníssima quantidade de drogas para consumo próprio, que se for para uma audiência de custódia até resulta em soltura. Há todo um trabalho do Judiciário que poderia ser evitado e agilizado se houvesse uma articulação e estabelecimento de prioridades que sejam exequíveis. Homicídio é prioridade, feminicídio é prioridade, crimes graves que envolvem ameaças, estupro, sequestro, crimes que envolvem violência física devem ser as prioridades.

    Mas essa eventual “descarcerização” não pode ser mal vista pela sociedade?

    A gente não quer passar a mão na cabeça do bandido. Não queremos facilitar a vida do bandido. Estamos é reconhecendo que existem áreas fundamentais para assegurar a segurança do cidadão que estão descobertas. E esse recurso valioso para o funcionamento da segurança pública e do Poder Judiciário está sendo desperdiçado com casos que não têm tanta importância, como pequenas quantidades de drogas ou pequenos furtos em lojas, um sujeito que rouba uma camiseta, algo para comer, casos que poderiam ser solucionados de outra forma. É um delito, claro, mas está ocupando o sistema de Justiça com uma solução que poderia ser de natureza civil e penas alternativas.

    Quando a gente fala que precisa racionalizar a aplicação da pena de prisão não é porque somos a favor de que o bandido tenha liberdade, é por que achamos que deve haver prioridade na ação. Aquilo que pode ser tratado de uma forma que não envolva a pena de prisão deve ser feito porque é mais barato tanto economicamente quanto nos efeitos sociais nefastos que a prisão causa em quem vai ser encarcerado, incluindo o contato com as organizações criminais dentro das prisões. Você pega um jovem que se envolveu numa questão simples de furto ou de pequena quantidade de drogas e coloca ele na cadeia, ali ele vai ter contato com as organizações que talvez não teria antes. Como as condições carcerárias são degradantes, a pessoa para sobreviver tem que se relacionar com quem dá as ordens no ambiente prisional. Não tem alternativa. No fim, isso tudo traz muito mais prejuízos do que benefícios.

    As questões de fundo então passam por uma nova visão de quem prende?

    Há o enfrentamento equivocado do crime. Há pouca eficácia no combate ao crime em dimensão macro, que são realmente as redes criminais, como elas lavam dinheiro, como se organizam, quem são as lideranças principais e como ela corrompe o sistema. Se investe pouco nisso que é a sustentação da economia criminal. Por outro lado se gasta muito recurso e se usa uma mão dura com pessoas que estão na franja desse sistema, usando mecanismos que fazem com que ela vá ter mais contato com o crime organizado e não menos.

    Aquela pessoa que está na rua praticando um pequeno delito pode ser que não tenha contato com o crime organizado, mas se ela for presa, certamente terá. Pegar um jovem que não tem envolvimento com o crime organizado e jogá-lo dentro de uma cadeia que está em tensão, você não está resolvendo problema nenhum, pelo contrário, está amplificando um problema de segurança que vai redundar nisso que estamos assistindo e ainda coisa pior que pode ser desdobrar, porque esses conflitos são disputas de poder, de território e de mercado que podem sair da penitenciária e vir pra rua mesmo. É o que estamos assistindo empiricamente na Bahia, Alagoas, Rio Grande do Norte e Ceará.

    O Mapa do Encarceramento fala bastante sobre a tendência punitivista do Judiciário. Como é isso?

    Ela é punitivista, mas é enviesada. Ela é muito punitivista com o baixo potencial lesivo, mas é leniente com crimes violentos, que são pouco investigados. Se calcula que só 8% dos crimes violentos são esclarecidos e processados. O Judiciário é muito punitivo com crimes que não são violentos, ligados ao patrimônio ou a drogas, e muito pouco punitivo com a corrupção, por exemplo. É uma seletividade na orientação daquilo que merece atenção do sistema penal. No caso dos crimes violentos, não é para isso que a polícia e o sistema penal estão olhando.

    Mas a sensação de insegurança da população não está relacionada mais aos crimes contra a vida?

    Sim, mas também à questão patrimonial pessoal. Você ter a sua casa invadida é algo de fato assustador, ter sua intimidade violada. Esses crimes que as pessoas mais têm medo, não produzem a maior parte da população carcerária. Hoje, 30% dos presos são por tráfico de drogas e quase metade é por crime patrimonial. Boa parte desses crimes patrimoniais não são cometidos de forma violenta, mas a outra parte sim e então é mesmo preocupante e deve ser combatido. Porém, nossas políticas de segurança pública estão tão ocupadas com a questão das drogas e dos crimes patrimoniais indistintamente, que faltam recursos, falta tempo e faltam vagas em presídios para tratar do que realmente é importante e deveria ser a prioridade .

    ACESSE:Não se pode combater organizações e fluxos ilegais sem mexer em articulações políticas e econômicas